Governo da Tunísia anuncia anistia geral, mas protestos prosseguem

O governo de transição tunisiano adotou nesta quinta-feira um projeto de lei de anistia geral e decretou um luto de três dias "em memória das vítimas" da Revolução do Jasmim

AFP |

Nas ruas, os manifestantes, temerosos de que seja despojada de seu sentido original a Revolução do Jasmim, reprimida violentamente pela polícia do ex-presidente Zine El Abidine Ben Alí e com um saldo de pelo menos 100 mortos, segundo a ONU, não dão trégua em seus protestos.

Queixam-se da presença de diversos ministros do regime deposto de Ben Alí, que, após 23 anos no poder, fugiu do país no dia 14 de janeiro sob a pressão da revolta.Durante este primeiro Conselho de Ministros após a queda de Ben Alí, o governo provisório também decidiu que o Estado tomará posse dos "bens móveis e imóveis da Assembleia Constitucional Democrática" (RCD), o partido do presidente deposto.

"Um projeto de lei de anistia geral foi adotado pelo Conselho de Ministros, que decidiu submetê-lo ao parlamento", declarou à AFP o ministro de Desenvolvimento, Ahmed Nejib Chebi."O movimento Ennahdha está incluido na anistia geral", informou o ministro de Educação Superior, Ahmed Ibrahim.

Proibido sob o regime de Ben Alí, o partido islamita Ennahdha anunciou na terça-feira que pedirá sua legalização.Além disso, como sinal revelador de uma volta à normalidade, o governo decidiu pela retomada das aulas nas escolas e universidades "na próxima semana".

Dando mostras de democratização, o governo aboliu a polícia política das universidades, tradicionais focos de agitação."A partir de amanhã, a comissão responsável por preparar as eleições começará a trabalhar.

Há leis por escrever, outras para revisar, em um espírito de cooperação com todas as tendências e todas as sensibilidades, sem exceção alguma", declarou Ahmed Ibrahim, chefe do partido Etajdid (ex-comunistas).Segundo a constituição tunisiana, as eleições presidenciais e legislativas devem ser realizadas em um prazo de dois meses, em caso de vazio de poder.

Mas o primeiro-ministro já anunciou que serão "em seis meses".Na capital tunisiana, mil manifestantes foram autorizados pela primeira vez a protestar perante a sede do antigo partido no poder."O povo quer que o governo renuncie", gritavam os manifestantes, que exibiam cartazes com frases como "Traidores, já não temos medo"."Estamos com vocês.

Não vamos disparar, o essencial é que a concentração seja pacífica", respondeu um coronel do Exército.Os manifestantes aplaudiram, alguns coletaram flores, que depositaram na boca dos canhões dos tanques, ante os olhares de militares sorridentes.Para tentar desativar a crise de confiança, todos os ministros da RDC anunciaram ter abandonado o partido, que por sua vez informou a dissolução de seu gabinete político.

Um dos ministros, Zuheir M'dhafer, que era ministro do Desenvolvimento Administrativo, apresentou o pedido de demissão do cargo, segundo ele para "preservar o interesse supremo da nação e favorecer a transformação democrática do país".

M'dhafer é considerado o idealizador da reforma constitucional aprovada em 2002 por referendo, que permitiu a Ben Ali ter mais dois mandatos consecutivos.Por sua vez, a televisão estatal, que cita uma "fonte oficial" não identificada, anunciou a detenção de 33 familiares de Ben Ali, mostrando imagens de jóias e cartões de crédito apreendidos.

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