O pior de tudo é não ter o corpo, diz mãe de Eliza Samudio

Sônia Moura afirma que a filha era obstinada e ¿não tinha medo¿. Bruninho, diz, já tem características do goleiro

Lectícia Maggi, enviada a Contagem |

Sônia Fátima Moura, de 44 anos, sofre duplamente. Primeiro, por ter perdido a filha, Eliza Samudio, que, segundo a polícia, foi brutalmente assassinada por Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. O goleiro Bruno Fernandes, que seria o pai de seu filho, é acusado de ter orquestrado o crime.

Depois, por não ter um corpo para enterrar e assim administrar o próprio luto. “O pior de tudo é não ter o corpo. Nós humanos somos apegados à carne. Para mim, fica muito difícil falar que ela está morta. Mas cadê o corpo?”, questiona, em entrevista ao iG . “Vai ser muito mais difícil se ela não aparecer”, diz, enquanto enxuga as lágrimas. A Polícia Civil realizou diversas buscas pelo corpo em Minas Gerais, em locais como o sítio do goleiro Bruno e a casa de Bola, mas nenhum resto mortal de Eliza foi localizado.

AE
Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio, acompanha audiências no Fórum de Contagem, na Grande Belo Horizonte
Moradora de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Sônia está hospedada em Contagem (MG) desde o início desta semana para acompanhar a audiência que deve decidir se os acusados de dar fim à vida de sua filha irão a júri popular. Sempre de salto alto e óculos escuros na cabeça, ela permanece atenta no plenário durante a maior parte dos depoimentos. Vez por outra, se ausenta para, segundo ela, ver o neto Bruninho, que trouxe consigo . “Ele não fica muito tempo longe”.

Quando fala dele, Sônia se emociona ainda mais. “O que mais me deixa indignada, o que mais me dói é saber que ele teria o mesmo fim (de Eliza). Nem um inocente eles poupariam para esconder o que fizeram. Foi a mão de Deus que salvou meu neto ”, considera ela. Em seguida, se anima: “Tenho fotos dele aqui, quer ver?”, e tira da bolsa fotos do bebê na banheira e na cama. Em todas ele está rindo.

“Os olhos são dela, o cabelo é da cor do cabelo da mãe quando criança. A Eliza estava pintando o cabelo porque o natural não é desse jeito preto que aparece nas fotos”, destaca com um sorriso. Segundo ela, já é possível reparar também algumas características do Bruno no neto. “Está querendo aparecer aquele furo no queixo igual ao do Bruno. A cabeça atrás é igual também”, diz ela, que, sempre quando questionada sobre a possível paternidade do jogador, tem resposta rápida: “preferia que não fosse (o pai)”.

A relação com Eliza

Sônia conta que a filha viveu com ela até os 4 anos em Foz do Iguaçu (PR), quando a entregou para a avó paterna. “Devido à difícil condição financeira”. Segundo ela, o ex-marido queria reatar o relacionamento e, como uma forma de punição à sua negativa, não a deixava ter um contato frequente com a menina. “A gente se falava por telefone, eu a via escondida, quando ele não estava em casa”, conta.

Quando a filha estava com 14 anos morou por um ano com a mãe, já em Campo Grande. Sônia diz que, “por não concordar com as regras da casa”, Eliza optou por voltar à casa do pai. “Eu não deixava ela sair à noite. Quando tinha que sair, era comigo. Eu ficava preocupada, era de menor. Mas na casa do pai dela, com 12, 13 anos ela já ia para a balada e voltava no outro dia”, explica.

Em 2005, Sônia descobriu que a filha havia fugido da casa do pai e ninguém sabia o seu paradeiro. “Eu achando que ela estava lá e eles achando que ela tinha ido morar comigo”, diz e explica que contratou uma pessoa para procurar Eliza e ela descobriu que a jovem estava em São Paulo.

Contudo, Sônia já estava novamente havia 9 meses sem falar com a filha quando soube pela TV que Eliza poderia já não estar mais viva. “Foi um choque, a vi pela TV, sentei. A cabeça virou, você perde o chão. Fiquei uns dois, três dias pensando no que iria fazer”, lembra ela, que tampouco sabia que ganharia um neto. “Foi tudo de uma vez só”.

Dor de alma

Mesmo não tendo um contato constante com Eliza, Sônia descreve que a dor de perder um filho não tem explicação. “É uma dor de alma. É uma sensação de impotência, saber que você não pode fazer nada, não pode proteger. Saber que foi dessa forma covarde é pior ainda”, diz.

Sônia novamente esboça um sorriso quando relembra os momentos passados com Eliza. “Ah, a Eliza desde pequena sempre foi amorosa, com 18 anos ela sentava no meu colo. Sentava no chão, no meio das minhas pernas. Era muito alegre”, afirma. "Bruninho", completa, é “igualzinho”. A principal diferença, explica, é que Bruninho é “ativo”, enquanto Eliza era “supercalma”. “Às vezes, achava ela dormindo pelos cantos da casa”, diz.

Segundo ela, Eliza também gostava de futebol e, enquanto morou no Mato Grosso do Sul, jogou em um time de meninas, como goleira. Entre as diversas características da personalidade da filha, ela enfatiza a determinação. “A Eliza era determinada. Se queria, brigava para conseguir. Ninguém tirava da cabeça dela alguma coisa quando ela queria fazer. Era obstinada”, afirma.

Quando questionada sobre a profissão da filha, disse ter conhecimento apenas que ela trabalhava com eventos e, por isso, tinha contatos com jogadores. “Foi doloroso saber”, admite, acanhada, ao se referir ao suposto filme pornô estrelado por Eliza. Mas completa imediatamente: “Ninguém sabe as condições que ela se encontrava e o porquê fez”.

“Se tivesse bala, matava”

Para Sônia, Eliza sabia que iria morrer desde o momento em que supostamente entrou no carro do Macarrão no Rio de Janeiro rumo a Minas Gerais. Conforme as investigações policiais, o menor J., primo de Bruno, deu coronhadas com uma arma em Eliza dentro do veículo. “O menor mesmo falou que ela conseguiu pegar a arma e disparou duas vezes, mas não tinha bala. Se tivesse bala, hoje Macarrão e esse menor não estariam aqui para contar história”, considera. “A Eliza era durona, não tinha medo, peitava”.

Isenção de Bruno

Pelo que tem acompanhado da audiência, Sônia disse acreditar que a defesa está tentando eximir o Bruno de culpa e desqualificar a situação de cárcere privado. “Todos dizem que ela tinha livre acesso, podia andar normalmente pelo sítio, mas se conheço minha filha e, se fosse assim mesmo, ela tentaria uma fuga”, considera.

Com tantas contradições entre os depoimentos dos oito acusados pela morte de sua filha, Sônia diz querer saber ainda exatamente o que aconteceu. “Só eles podem me dar a resposta. Já disseram que a minha filha esteve em São Paulo, no Rio de Janeiro. Agora está na Holanda fazendo show. Se está na Holanda é tão simples tirar todo mundo da cadeira. Vamos lá buscar ela”, indigna-se.

Sônia deixa ainda mais uma questão no ar entre tantas as perguntas que precisam ser esclarecidas. “Será que é foi só por causa de pensão que mataram? Este motivo pequeno? Eu não acredito.”

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