Nem Freud explica: Psicanalistas divergem sobre o caso Bruno

Profissionais ouvidos pela reportagem do iG tentam explicar frieza do goleiro Bruno que, mesmo detido, pensava na Copa de 2014

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Em conversa informal gravada pela TV Globo, na noite desta quarta-feira (7), Bruno lamentou por achar que estará fora da Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil. A conversa com o amigo Luiz Henrique Romão, conhecido como Macarrão, foi gravada na Polinter do Andaraí, no Rio. “Agora eu acho que as coisas ficaram mais difíceis. No Brasil, se eu tinha a esperança de disputar a Copa de 2014, acabou. Isso sou eu falando”, disse ele, parecendo estar alheio às acusações de ser o mandante do assassinato de Eliza Samudio.

Gazeta Press
Bruno descansa durante sessão de treinamentos do Flamengo no dia 27 de junho deste ano, dias antes de ser afastado pelo clube

A pedido da reportagem do iG, psicanalistas analisaram a situação para tentar entender a aparente frieza com que Bruno parece lidar com o crime que chocou o Brasil. É importante ressaltar que, aos olhos da Justiça, até o momento, Bruno é apenas suspeito de participação em um crime. A polícia no Rio concluiu o inquérito sobre o desaparecimento de Eliza, mas a de Minas Gerais ainda não encerrou o seu. Por isso, ainda não há um processo na Justiça.

Ainda que ressalte que só analisa o goleiro através de situações que a mídia traz à tona, o psiquiatra e psicanalista Luiz Alberto Py afirma que ele se enquadra em um típico quadro de psicopatia. “Na frase em que fala sobre Copa do Mundo, é uma clara demonstração de que estava apenas preocupado com o problema dele. Há uma mulher morta, que seria sua ex, ele sendo acusado... E ele tem a cara de pau de dizer isso? E a frase anterior (dita dias antes), de que torce para que ela apareça? É um típico caso de psicopatia. Todos são iguais, achando que está tudo bem”, diz.

O psicanalista explica que o psicopata usa valores próprios para argumentar suas ações. O que, para o meio médico, é considerado “loucura moral”. Segundo ele, essas pessoas não são loucas clinicamente, mas fazem coisas em nome do bem estar pessoal. “Ele não usa valores da sociedade, mas valores pessoais que considera normais, na linha ‘que se dane o resto’”, explica Py. Segundo ele, Bruno parece não se importar com a situação. “A pessoa, com tal característica mental, nesta situação não sofre. O sofrimento dele é ser pego. Enquanto não é pego, não perde o sono, não tem insônia, não tem pesadelo”, diz.

Cinismo como parâmetro

Francisco Daudt não se assusta com o fato de Bruno ficar preocupado com a participação na Copa de 2014, mesmo estando numa delegacia, acusado de um crime. “Se um cara desses aparentasse arrependimento ou estado horrorizado, eu ficaria mais preocupado com sua saúde mental. Seria uma grande quantidade de cinismo. Me soa mais razoável que ele se mantenha equilibrado”, afirma Daudt. Para o psicanalista, esta relativa normalidade que Bruno tenta passar tem a ver com a sua formação. “O sujeito é treinado em outra realidade desde criança. Quando adulto, ele pode argumentar dizendo que, de onde vem, isso é normal se resolver assim”, continua ele, autor de livros como “O Amor Companheiro”, entre outros.

Mas Daudt faz um alerta. “Bruno quer nos passar na conversa, porque ele quer safar sua pele. Qualquer coisa que ele faça é para isso, a prerrogativa do prisioneiro é tentar escapar. Não acho nada de extraordinário ele bancar a naturalidade. Na cabeça dele, assim vai mostrar que está tudo sob controle, que não é culpado de nada”, diz.
Outro psicanalista, Alberto Goldin também encara a possibilidade de Bruno no envolvimento do sumiço de Eliza como sendo um crime de questão social. “É muito mais um crime com fundamento social do que psicológico, por isso não vejo como quadro psicótico. No caso psicológico, a questão passa por um pré-julgamento da consciência dele. No caso social, ele resolve o problema como se fosse numa favela”, compara.

Mente sem cura

Tanto Goldin quanto Luiz Alberto Py convergem em opiniões ao afirmar que um quadro como este é de difícil resolução. Para Alberto Goldin, não há cura. “Não há como tratar uma mente com uma formação cultural dessa característica. É um problema irresponsável, primário, é obvio que ele faz podendo até pensar nas conseqüências, mas isso não é determinante para que ele evite cometer”, diz.

Já Luiz Alberto Py encara a cadeia como única saída, para casos como este. “É difícil manter o controle, só com forte ameaça. Quando pessoas assim se sentem correndo o risco é que param. Por isso que existe cadeia, para segurar pessoas que não têm condições morais de viver junto com outros”, afirma.

Outros envolvidos

Segundo depoimentos já informados pela própria polícia, há pelo menos outros sete envolvidos no sumiço de Eliza Samudio. Para Daudt, o fato de haver vários integrantes no crime só reforça sua tese. “Pelo que entendi, ele não teria feito isso sozinho, mas com um grupo de pessoas. É uma coisa meio faroeste, justiça com as próprias mãos. É aquela coisa de um líder mandar e os outros obedecerem, por terem uma cultura não civilizada. Por serem todos do mesmo meio”, afirma.

É o que Goldin classifica como “solidariedade”. “Isso é forte quando se tem um caso de questão social. Se tem outros envolvidos, é a questão da solidariedade entre amigos em torno dele que prevalece. Infelizmente dessa forma tão brutal. Penso que uma pessoa com um pouco mais de instrução saberia da responsabilidade que estava assumindo”, diz o psicanalista.

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