Marcos Braz: 'Bruno mostrava preocupação que qualquer um teria'

Ex-vice de futebol do Flamengo fala sobre comportamento do goleiro, seu encontro com ele preso, e as polêmicas no clube

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Um dos dirigentes que mais conviveram com Bruno no Flamengo foi o ex-diretor e vice de futebol Marcos Braz. Nas suas duas passagens pelo clube, viveu conquistas e deixou a Gávea pouco mais de um mês antes do desaparecimento de Eliza Samudio decretar a prisão do goleiro. Na visão do dirigente, Bruno se envolvia em problemas tentando ajudar os demais. Ele relatou que a relação com o atleta sempre foi cordial e que chegou a encontrá-lo já preso, na qual foi recebido com uma brincadeira: "Pô, Euricão (referência ao ex-presidente do Vasco, Eurico Miranda), me abandonou".

nullEm entrevista ao iG , Braz falou sobre as polêmicas em que o jogador se envolveu, como a vez em que disse estar "se lixando" para a torcida e teve de dar explicações aos líderes de organizadas , a evolução do caso entre Bruno e Eliza Samudio , além dos bastidores da trajetória do goleiro no Flamengo.

iG: Você conviveu bastante com o Bruno, em dois momentos. Ele mudou neste período?
Marcos Braz: Assumi como diretor de futebol em 2006, conquistamos a Copa do Brasil e saí depois do bicampeonato estadual, no meio de 2008. Depois assumi na metade de 2009 como vice de futebol e ganhamos o título brasileiro, saí depois da primeira fase da Libertadores em 2010. Ou seja, convivi muito com o Bruno. Ele não mudou nada nesse período. Sempre teve um temperamento um pouco explosivo, mas ficou mais maduro no Flamengo. Não posso mudar meu discurso porque o Bruno está nessa situação.

iG: Como era o Bruno no dia a dia do clube?
Marcos Braz: Tenho algumas passagens que demonstram como ele era. Logo que assumi, naquela semana que o Flamengo jogaria com o Santos na Vila Belmiro, onde nunca tinha vencido um jogo oficial e não vencia jogo nenhum há 30 anos, algo assim, e se perdesse poderia entrar na zona de rebaixamento, o Bruno veio falar comigo. Disse: “Vê se arruma um dinheiro para pagar a garotada, porque eles estão com problemas”. Em nenhum momento como capitão ele pediu algo para ele. Talvez o Bruno não tenha sido um grande capitão externamente, falando ao público, mas internamente sempre me cobrou e também sempre me ajudou. O Bruno pegou Adriano e todos os outros e disse: “Não tem dinheiro, pedi para pagarem os meninos e vamos receber por último”. E assim foi. Ele me deu mais trabalho em função de coisas que falou do que pelas atitudes. Dentro de campo então não precisa nem falar.

iG: Um deles foi a entrevista após o episódio com a namorada do Adriano na Chatuba, correto?
Marcos Braz: O Adriano teve um problema naquela semana da entrevista. Falei para o Bruno deixar quieto que a gente gerenciaria de outra forma. Ele disse: "Eu sou o capitão, não acho justas essas acusações sobre os jogadores do Flamengo, você sabe que não foi isso, eu preciso falar". Aí ele me convenceu e deu aquela entrevista. Aconteceu o que aconteceu (Bruno indagou, entre outras coisas, 'quem nunca saiu na mão com a mulher', e foi obrigado pela presidente Patrícia Amorim a pedir desculpas publicamente). A maioria das vezes que o Bruno se atrapalhou, foi tentando ajudar os outros ou gerenciando problemas dos outros. De 10 situações, nove foram isso.

iG: Essa que faltou foi aquele episódio com o Marcinho (ex-jogador do Flamengo) no sítio em Minas Gerais?
Marcos Braz: Exatamente. A única coisa que o Bruno tinha ali era o sítio. Aquela situação, que conheço bem e não vou entrar no mérito porque é assunto pessoal dos jogadores, quem tentou o tempo todo gerenciar o problema foi o Bruno. Não que ele seja santo, mas foi quem tentou gerenciar, até por ser o dono do sítio. Foram um ou dois jogadores ali que arrumaram confusão, deram uns tapas lá nas mulheres, e deu aquele problema todo.

Gazeta Press
Bruno descansa durante sessão de treinamentos do Flamengo no dia 27 de junho de 2010, dias antes de ser afastado pelo clube
iG: E o atrito com o Petkovic, no vestiário?
Marcos Braz: Foi no único jogo que eu não fui. Não quero falar muito porque não estava presente. Soube na mesma hora. Foi sério porque foi num intervalo de jogo, mas ninguém deu soco e pontapé no outro, teve aquela discussão, um empurrão. Numa competição internacional não poderia ter acontecido com nenhum jogador, nenhum dirigente. Não era lugar nem hora para isso. Falei com o Bruno, que já sabia dos meus desconfortos com o Pet. Mas nem por isso deixei de repreender o Bruno. Sei separar bem as coisas.

iG: Como era o Bruno em momentos de pressão?
Marcos Braz: Dentro do vestiário, antes dos jogos, ele passava uma tranquilidade absurda. Naquele momento que não entra mais ninguém, as portas fecham, quando começou o jogo ainda sem a bola estar rolando, a frieza dele era acima do normal. E já trabalhei com muito jogador. Todos confiavam nele, ele confiava em si e a comissão técnica o tinha como um aliado. Tem jogador que já olhei para a cara e pensei: "Estou ferrado". Começa a ir ao banheiro toda hora, isso acontece. Mas com o Bruno não. Nunca me passou falta de tranquilidade perto de um jogo. Foi importantíssimo nos títulos até acontecer esse fato.

Marcelo Theobald/Agência O Globo
Eliza Samudio em foto de arquivo
iG: Qual a sua leitura do caso Bruno e Eliza Samudio?
Marcos Braz: Todo mundo sabe como foi o começo, ninguém sabe como foi o meio, e todos sabem como foi o fim. É uma história sem meio. O começo todo mundo sabe, não preciso falar, não tem criança aqui. O fim é o que está sendo noticiado. O Bruno em nenhum momento me mostrava uma falta de tranquilidade no campo em relação a isso, mas era um fato que trazia um desconforto. Ele engravidou uma mulher numa determinada situação, não sabia mesmo se o filho era dele, porque não dava para saber, e o que o Bruno passou para mim nunca foi a questão de que assumiria ou não, mas que queria saber se o filho era dele. Esse era o desconforto. Parece que comprovou depois, mas numa situação já completamente desordenada.

iG: Você conversou com o Bruno quando o problema com a Eliza surgiu?
Marcos Braz: Conversei pouco com o Bruno sobre isso, até porque é uma coisa que eu tinha de deixar ele vir falar comigo. Você tem de separar o cargo da amizade. O Bruno na época foi repreendido, mas queria o quê? Que eu tirasse ele de jogo? Não dava para imaginar qual era o final. Até porque se for analisar situação por situação, tem jogador nesse elenco que teve problema com mulher e tudo se solucionou, vida que segue. Naquela época ninguém sabia o final desse assunto. Eu tinha de analisar o Bruno na parte desportiva.

iG: Houve um episódio em que ele se envolveu em polêmica com a torcida e teve de dar explicações aos líderes de organizadas. Como você analisa esse caso?
Marcos Braz: Teve uma vez que a torcida estava vaiando o time e ele foi dar uma resposta. Não estavam vaiando ele. Mas comprou o barulho, deu uma declaração (disse estar "se lixando") e se enrolou. Lamento o que aconteceu. Ninguém sabe ainda qual o desfecho, tem um norte, mas não foi julgado. Não sei nem o que esperar dessa situação do Bruno. Se ele não tivesse esse problema, estaria certamente na seleção. Não sei nem se seria o titular, mas entre os três é brincadeira. A diferença do Bruno tecnicamente para esses que estão aí é abissal.

iG: Em algum momento ele o procurou para conversar?

Marcos Braz: Uma vez, depois que ele teve o problema com a Eliza, teve até um vídeo com ela (veiculado pelo site do jornal Extra no qual ela acusa Bruno de ameaças), é que ele veio conversar comigo. Fui saber dessa situação que ele tinha engravidado uma mulher numa festa através da imprensa. Mas em nenhum momento o Bruno veio falando de maneira agressiva, externando uma raiva, ódio. Mostrava uma preocupação que qualquer homem teria. Qualquer um ficaria numa situação desconfortável. O cara casado, foi para uma festa e engravidou outra mulher. Não me sinto desconfortável de dar uma entrevista porque vivemos muitos momentos bons, tive de tomar Engov para não ficar enjoado com tantas voltas olímpicas.

iG: Daí para frente, o que aconteceu?
Marcos Braz: Eu não era mais o vice de futebol quando a Eliza desapareceu. Foi um mês depois mais ou menos. Mas acho que o caso foi mal conduzido por ele, pela diretoria, pelos advogados, por todo mundo. Problema sem solução, solucionado está, essa é que é a verdade. Não adianta mais achar culpado. Quem mais se prejudicou foi ele próprio, os filhos dele. Não é uma lição para o Bruno, é para todo mundo. No momento que você acha que não pode ficar pior, dependendo da sua atitude pode sempre ficar muito pior. Então eu espero que o Bruno tenha paz, tranquilidade, força, para resolver esse problema.

iG: Você chegou a visitar o Bruno?
Marcos Braz: Tive contato com ele uma semana antes dele ser preso para saber pessoalmente o que estava acontecendo, porque eu não estava mais no dia a dia com o Bruno. Orientei em algumas situações, ele fez tudo ao contrário. Fui a trabalho ao Norte do Brasil e saiu a prisão dele e do Macarrão. Depois disso, quando estava preso, falei com ele mais uma vez, não direi aonde, foi uma situação desconfortável. Não para mim, mas não dava para falar muito, enfim... Pouca gente sabe, mas o Vágner Love, o Bruno, o Álvaro, brincavam me chamando de 'Euricão'. E a primeira coisa que ele falou foi: "Pô, Euricão, me abandonou". Comecei a rir. Aí conversamos. Ele tinha o sentimento que poderia reverter o caso, para mim todas as vezes falou que não tinha nada a ver com a parada, que não era culpado. Ficamos lembrando dos títulos, ele lembrou de uma foto nossa da CBF levantando a taça.

iG: Em algum momento dessa história você se emocionou?
Marcos Braz: Só teve um momento nessa situação toda do Bruno em que eu chorei. Não sei se o Bruno está certo, errado, se tem de pagar ou ser absolvido. Mas eu tinha uma relação com o cara. Quando eu vi o goleiro da Espanha (Iker Casillas) levantar a taça da Copa do Mundo, congelei. Não conseguia não ficar imaginando o Bruno. Foi muito perto daquilo tudo. Estava tudo muito à flor da pele, tudo muito intenso para mim ainda. Fiquei pensando, como é que pode, há seis meses o cara estava fazendo o mesmo gesto, sendo campeão brasileiro. Foi a única vez que fiquei ferrado nessa história, para baixo. Aquilo me quebrou.

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