Juíza ouve goleiro Bruno sobre morte de Eliza

'Em momento algum a vida dele (Bruninho) ou da Eliza esteve em perigo. Nunca falei para ela abortar', afirmou o goleiro

Lectícia Maggi e Camila Dias, de Contagem |

A juíza Marixa Fabiane Lopes, que realiza audiência no Fórum de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, sobre o desaparecimento de Eliza Samudio, está interrogando o goleiro Bruno. A magistrada inverteu a ordem dos depoimentos deste quarto dia de audiência e determinou que o goleiro fosse a primeira pessoa a ser ouvida ao invés de Luis Henrique Romão, o Macarrão.

O goleiro entrou na sala por volta das 10h. A juíza solicitou também a presença de Macarrão para que os dois ouvissem juntos as acusações que pesam sobre eles. Bruno veste uniforme da prisão de mangas compridas. Ele está sentado de frente para a juíza, de costas para a plateia. Macarrão usa camiseta de mangas curtas e chinelos. O advogado de Buno, Ércio Quaresma, solicitou à juíza que Bruno não fosse fotografado e, então, todos os fotógrafos e cinegrafistas foram retirados da sala.

Questionado se iria falar, Bruno afirmou que só responderia perguntas feitas pela juíza e não do promotor Gustavo Fantini e dos advogados de seu primo Sérgio Rosa Sales e de sua ex-mulher Dayanne do Carmo Rodrigues. Ele acrescentou que não respondeu perguntas feitas em interrogatórios da Polícia Civil porque os delegaos "entraram na onda do que o menor (J.) disse" e "queriam que eu inventasse uma história".

Logo no início do interrogatório, quando questionado sobre qual era seu endereço, Bruno pareceu desorientado: “Nem sei de cor, doutora, quando me entreguei era no Rio”. Sobre os filhos, o goleiro afirmou “tenho duas filhas e possivelmente um filho”. A afirmação causou comentários na plateia, formada essencialmente por jornalistas. A mulher de Macarrão acompanha tudo da primeira fila. A avó de Bruno, Estela de Souza, a quem ele chama de mãe, chegou à sala de audiência por volta das 12h15 e se sentou na terceira fileira, ao lado da mãe de J., Simone.

A primeira pergunta feita juíza sobre o caso especificamente foi se Bruno salvou o bebê Bruninho. A resposta do atleta foi: “Em momento algum a vida dele ou da Eliza esteve em perigo. Mesmo tendo dúvida se o filho era meu ou não, sempre ajudei, desde o começo da gravidez. Em momento algum falei para ela abortar”, afirmou. Segundo ele, mensalmente eram dados de R$ 1.200 a R$ 1.300 a Eliza.

Discussão e viagem

De acordo com Bruno, Eliza estava hospedada em um hotel no Rio de Janeiro na noite de sexta-feira, dia 4 de junho, e ameaçou Macarrão de fazer um “escândalo na imprensa”. Depois de um jantar na cidade, segundo ele, com Macarrão, Eliza e o menor J., houve uma discussão no carro, no trajeto de volta ao hotel, entre J. e Eliza porque a jovem teria xingado o atleta. “O J. diz que ela falava ‘quem eu pensava que era, que eu achava que era Rogério Ceni, um filho da p..., um m...’ J. tomou as dores e houve agressão física entre os dois”, disse. Segundo ele, o nariz de Eliza chegou a sangrar e J. ficou com arranhões. Ele negou, porém, que tenha visto ferimento na cabeça da ex-amante.

Bruno afirmou ainda que Eliza pediu R$ 50 mil, possivelmente, para pagar dívidas em São Paulo, mas Macarrão disse a ela que eles só tinham R$ 30 mil. “Eu disse que poderia depositar, mas ela disse ‘eu não confio em você, prefiro viajar com você e quis vir para Belo Horizonte”. A viagem diz ele foi por espontânea vontade.

Macarrão

Desde o início do depoimento, Bruno ressalta, a todo o momento – mesmo sem ser questionado pela juíza - a ligação que mantém com Macarrão. “Mais do que amigo, é quase um irmão”, diz. Por pelo menos cinco vezes afirmou que “a vida começou a andar” depois que Macarrão apareceu. Segundo ele, “tudo estava dando errado financeiramente” antes de Macarrão administrar suas contas. “A ponto de alguém que ganha mais de R$ 100 mil às vezes não ter dinheiro para por gasolina no carro”.

Ele exalta o amigo e diz que confia “plenamente” nele, que era ele quem acertava os pagamentos com Eliza e também com funcionários do sítio. Macarrão, diz Bruno, tinha, inclusive, sua senha bancária. "A oportunidade que ele aproveitou despertou inveja em alguns familiares", afirmou.

Primos Sérgio e J.

A mesma confiança ele disse não ter pelos primos Sérgio e J. Sérgio por não saber “aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas”. “Praticamente cuidei do Sergio, a gente cresceu juntos, quando chegou ao Rio ele se perdeu. Dei carro, dava R$ 1200 por mês, falava que queria que estudasse e ele disse que queria trabalhar.” Segundo Bruno, Sérgio nunca prestou serviços para ele, mas ainda assim era sustentado por ele.

"Ele quebrou a confiança. Já tinha dois anos que o Sérgio não morava mais comigo. Fui descobrindo as coisas. O tempo vai passando e você deixa de ser bobo. As pessoas de fora vão te falando e você não acredita até que se prove o contrário. Eu cuidava da família dele, eu cuidava da minha família toda. Eu pagava tudo para ele."

Com o menor J., que foi a 1ª pessoa que revelou como teria acontecido o assassinato de Eliza, Bruno disse ter ficado surpreso. “É menino bom, mas às vezes dá branco, distúrbio, não fala coisa com coisa.” Ele afirmou ainda que o primo é dependente de drogas. “Nunca esperei que ele fosse dependente químico. Sempre que perguntava, ele negava, talvez por medo, vergonha. A mãe dele me ligou desesperada, dizendo que era para eu ajudá-lo porque ele tinha perdido uma "carga" de drogas e tinha sofrido uma tentativa de homicídio. Eu falei para ela: 'Eu não vou deixar o meu sangue ser derramado. Tragam esse menino pra cá'. Em abril, ele foi morar comigo."

Segundo Bruno, cerca de 20 dias após estar morando com ele e a noiva, a dentista Ingrid Oliveira, em uma casa no Recreio dos Bandeirantes, começaram a sumir camisas de time de dentro de casa. Algumas delas, afirma Bruno, foram encontradas com J.

O goleiro diz que Fernanda de Castro apareceu em sua vida durante um breve período em que teve um desentendimento com a noiva. Foi com Fernanda que J. teria “se aberto, confessado ser dependente e falado dos brancos que dava na cabeça dele”. Bruno diz que “Fernanda tinha o dom de fazer as pessoas se abrirem”, e despertou risos na platéia com o comentário. A juíza, bem humorada, brincou: “também queria ter este dom”.

Ércio Quaresma, advogado de Bruno, permaneceu no plenário por menos de 1h no início do depoimento do cliente e, depois, se ausentou, deixando apenas um representante.

Às 13h50, a juíza fez uma pausa para o almoço. Na saída da sala de audiência, guiado por três policiais, Bruno acenou para o filho de Fernanda, o chamou e o abraçou.

Início da sessão

Antes do início da audiência, a juíza concedeu 30 minutos para o advogado de Bruno conversar com seu cliente. Ela também indeferiu um pedido de suspeição feito por um dos advogados de Macarrão, Wasley Vanconcelos, para que a audiência fosse comandada por outra juíza alegando que ela não é imparcial.

“Quando ela (juíza) afirma veementemente que ela está morta e foi brutalmente assassinada, ela não fez juízo de materialidade, ela fez juízo de valor. Quando ela fala que o menor mudou o depoimento no juízo, por interesse da defesa, ela fez juízo de valor. Ela quis dizer que o menor falou a verdade para o delegado e agora ele tá mentindo para defender o réu”, considerou Vasconcelos, em entrevista ao iG .

A magistrada negou e disse que está convencida da materialidade e da morte de Eliza Samudio, mas que em nenhum momento apontou quem seria o culpado pelo crime e alegou que inexistem motivos para influenciá-la. “Meu compromisso é com a verdade”, disse. O defensor afirmou que, se preciso irá recorrer aos STF.

O advogado não ficou satisfeito com a decisão. “Ela não possui mais capacidade processual para atuar nesse caso e nós vamos brigar por isso se for preciso até no STF, até em Brasília.”

Chegada ao Fórum

Por volta das 8h50, três viaturas do Comando de Operações Especiais da Polícia de Minas Gerais chegaram ao Fórum, levando Bruno e Macarrão. E diferentemente dos outros dias os veículos se posicionaram em frente à porta de entrada, de forma que a imprensa não pudesse filmar os acusados.

A mãe de Eliza, Sonia Fátima Moura, afirmou durante a manhã, ao chegar ao Fórum, que o depoimento de Macarrão, é um dos que mais aguarda. “Todo mundo joga no colo do Macarrão a culpa. Tentam se eximir”, disse ela, que pede aos acusados para que expliquem o que fizeram com sua filha. “Eliza esteve com eles, todos viram. Ela saiu do sítio e só voltou a mala. Se tivesse viajado, como dizem, teria levado seus documentos e roupas. É subestimar a inteligência do Judiciário e de toda a população”, considerou.

Para ela, os acusados estão tentando tirar Bruno da cena do crime e desqualificar o crime de cárcere privado. “Falam que ela circulava livremente, mas conheço a minha filha e com certeza, se fosse assim, ela teria tentado uma fuga. Ali, ela ficou acuada e estava sendo vigiada sim, e por Bruno.”

Por volta das 8h15, a mulher de Macarrão, Giorgina, chegou com as duas filhas bebês para acompanhar a audiência. Pouco tempo depois, a juíza solicitou a retirada das crianças. Ela entrou sem dar declarações.

Outro advogado do acusado, Américo Leal afirmou preferir que seu cliente ficasse calado, mas os outros defensores optaram por ele falar. “Como vai se defender se não conhece a totalidade do processo?”, questiona ele, acrescentando que os delegados que investigaram o caso, como Édson Moreira e Júlio Wilke, deveriam ser ouvidos.

    Leia tudo sobre: elizabrunomacarrãosequestro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG