Bruno admite que sabia da morte de Eliza Samudio e incrimina Macarrão e Bola

Goleiro Bruno disse que não foi o mandante do assassinato e que sabia que Macarrão contratou Bola para matar Eliza . É a primeira vez que ele reconhece que sabia do crime

Carolina Garcia e Ricardo Galhardo - enviados a Contagem (MG) | - Atualizada às

O goleiro Bruno Fernandes negou nesta quarta-feira (06), durante seu interrogatório no Fórum Criminal de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, que seja o mandante da morte de Eliza Samudio e jogou a culpa sobre o amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, e sobre o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. "Como mandante, não. Mas de certa forma, me sinto culpado", disse o goleiro no início do julgamento. Pouco antes de encerrar seus questionamentos, a juíza Marixa Fabiane Rodrigues perguntou ao réu se ele sabia que Eliza seria executada. Ele respondeu: “Eu não sabia, excelência. Mas aceitei.”

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Marcelo Albert/TJMG
Bruno chora ao depor nesta quarta-feira, durante o julgamento

A afirmação gerou tumulto no plenário e na sala destinada aos jornalistas. Notando a movimentação, Bruno logo tentou se explicar. “Excelência, posso explicar minha resposta?”. Ao ser autorizado pela magistrada, o goleiro disse que ouviu os planos de Macarrão e entendeu o amigo, que tanto se queixava da vítima dizendo que ela “causava muitos problemas”. Durante seu esclarecimento, que durou quase três horas, o jogador explicou aos jurados que conheceu a modelo em uma festa no final do ano de 2009. E, após uma relação sexual, ficou sabendo do filho Bruninho. “Sempre quis fazer o DNA, mas nunca consegui por falta de tempo”, disse.

O interrogatório foi acompanhado por Ingrid Calheiros, sua atual mulher, e Sônia Fátima de Moura, mãe da vítima. Ao menos duas vezes, Ingrid deixou o plenário chorando. Conversando com o iG , ela disse que “corta o coração” ver seu marido ali, “com aquela roupa e sendo caçado como um Bin Laden”, disse Ingrid enfatizando que os presentes têm tratado Bruno como um terrorista. Já Sônia, quando escutava o nome da filha, abaixava sua cabeça e fechava os olhos.

Participação de Bola

Marcelo Albert/TJMG
O goleiro no terceiro dia de julgamento, no Fórum Criminal de Contagem (MG)

Profissionais envolvidos no julgamento já diziam ao iG que Bruno poderia entregar o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, também conhecido como Neném, em troca da redução de pena. No principal momento do julgamento até o momento, Bruno relatou, em meio a muito choro, como seu primo Jorge Luis Rosa lhe contou como Macarrão e Bola mataram sua amante.

Após longa respiração, Bruno citou que esteve com a modelo até a noite de sexta-feira, dia 10 de junho, quando entregou R$ 30 mil para ela voltar para São Paulo. Então Macarrão e Jorge ficaram de levá-la para um ponto de táxi. "Mas não foi o que aconteceu", disse Bruno. Ele não sabia informar como ela seguiria para a capital paulista, mas contou apenas que Eliza “tinha problemas pessoas para resolver.”

Segundo o jogador, isso aconteceu perto das 18h, mas só por volta das 22h e 23h os dois voltaram, apenas com Bruninho. O réu confirmou a versão de Dayanne Rodrigues e disse que viu Jorge descer do carro com o bebê sem cobertas. “Jorge estava muito assustado. Estranhei e quis saber por que a criança estava com eles. Até falei: Poxa, cadê Eliza? Pelo amor de Deus, o que vocês fizeram com ela?", relatou o goleiro já chorando copiosamente, com a respiração ofegante. Segundo ele, Macarrão respondeu: “Resolvi o problema que tanto te atormentava". Com isso, Bruno teria pego o bebê e o entregado a Dayanne. “Pedi para ela cuidar dele porque eu precisava conversar com os meninos sobre o que tinha acontecido.”

O goleiro afirmou que sentiu medo, “entrou em desespero” e foi falar com Jorge sobre o que tinha acontecido. "Pergunta para o Macarrão porque foi ele que ajudou a matar Eliza", respondeu o primo. “Fiquei desesperado e chorei muito. Falei: ‘Macarrão, por que fez isso, cara? Não tinha necessidade”. Marixa então o indagou: “Por quanto tempo durou esse desespero?”. Ele fez uma pausa e respondeu: “Uma hora e meia, excelência”.

De acordo com o relato dado pelo primo para Bruno, Macarrão, Jorge, Eliza e Bruninho foram até perto do Mineirão, no bairro da Pampulha, quando Macarrão desceu do carro, fez um telefonema em um ‘orelhão’ e começou a seguir uma moto. O carro seguiu até uma casa em Vespasiano (MG), onde Macarrão entregou Elisa para um homem chamado Neném, que é um dos apelidos do ex-policial.

Então, segundo relato de Bruno, Neném teria perguntado se ela era usuária de drogas, cheirou as suas mãos, e pediu para o Macarrão amarrar seus braços para frente. Então Neném teria dado uma gravata em Eliza para matá-la. Jorge ainda disse que Macarrão teria chutado as pernas de Eliza. "E disse ainda que tinha esquartejado o corpo dela e jogado para os cachorros comerem". Na volta, o executor apareceu com um saco preto e teria perguntado aos dois, Jorge e Macarrão: “Querem ver o resto?”.

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Ao citar que conhecia apenas Nenêm, Ércio Quaresma, atual defensor de Bola, levantou e saiu do plenário com um sorriso no rosto e expressão vitoriosa. Para Tiago Lenoir, advogado de Bruno, citar o nome de Marcos Aparecido não foi ato falho.

Antes de dar a palavra para os defensores dos co-réus, Lúcio Adolfo voltou a questionar o seu cliente sobre possível medo de Bola e se foi beneficiado pela morte de Eliza. Chorando novamente, o jogador disse que teme e que sempre teve medo do ex-policial. E que a morte da modelo o favoreceu.

Marcelo Albert/TJMG
O jogador ouve a pergunta do advogado de defesa, Lúcio Adolfo

Silêncio para a acusação

Antes de Bruno começar a falar, o advogado de defesa Lúcio Adolfo comunicou que o goleiro não responderia perguntas formuladas pela acusação. Ele responderia apenas o que fosse perguntado pelos seus advogados, jurados e pela juíza. "Estou falando isso, excelência, para que ele não precise ficar falando: Não vou responder, não vou responder...", disse Lúcio.

Nais tarde, Bruno ouviu as perguntas do promotor Henry Wagner Vasconcelos que, mesmo sem as respostas, buscou registrar seus questionamentos em ata. A estratégia foi usada para que os jurados escutem as indagações da promotoria e possam refletir. O período também foi de embate entre acusação e defesa, que buscava impedir perguntas que incriminavam o jogador. Em certo momento, o promotor pediu a Adolfo que “faça manifestações de uma vez”. Caso contrário, “realizará manifestações pontuais por 57 vezes. O senhor respeite minha autoridade". Aldolfo rebateu: "Por a caso, o senhor passou no concurso e virou promotor [de Justiça]". A juíza então pediu calma e Vasconcelos disse que não continuaria com suas perguntas sem uma definição "de que não seria tratado dessa maneira". Após um pedido de Marixa, Adolfo cedeu."Só por causa do pedida da senhora, não vou tratar ele dessa maneira", disse o defensor causando gargalhadas na plateia.

Esclarecimentos aos jurados

O advogado Ércio Quaresma falou para uma cadeira vazia por quase uma hora, já que Bruno decidiu que não responderia suas perguntas e solicitou sair do plenário. Ao final de suas perguntas, o defensor de Bola pediu ao Conselho de Sentença o mesmo que quer para o seu cliente, “a absolvição”. Os jurados enviaram à juíza algumas perguntas para o réu, Bruno então quebrou o silêncio. Antes, já havia sido acordado que ele só responderia juíza, defensores e jurados.

As questões do conselho foram bem recebidas pela plateia. A primeira pergunta ao goleiro foi sobre a omissão do crime que teria sido arquitetado por Macarrão. “Eu poderia ter denunciado. As coisas foram acontecendo na minha frente. Por isso, de certa forma me sinto culpado.”

Na sequência, Marixa perguntou por que o réu mudou o nome do seu filho (que foi encontrado pela polícia como Ryan Yuri, não Bruninho). Segundo ele, quis a troca do nome para proteger o bebê. “Sabia que a polícia investigava e seria uma maneira de despistar e tirar atenção do menino. Só quis protegê-lo”.

A demora para a realização do exame de DNA “por falta de tempo” não convenceu o júri. Os jurados perguntaram por que o jogador – já que não tinha tempo – não optou por colher amostra de sangue em casa e pedido para alguém levar até o laboratório. Bruno apenas respondeu que não o fez “por falta de conhecimento, talvez”.

Bruno também explicou que sua amizade com o Macarrão não é a mesma. “Naquele momento [depois da revelação de Macarrão sobre morte de Eliza, ainda no sítio], o vínculo de amizade deu uma diminuída.” O longo depoimento – que chegou a 6 horas – é visto como positivo por sua defesa, que busca uma redução da pena pelas informações fornecidas. Nesta quinta-feira, dia 7, sessão será retomada às 9 horas com os debates entre promotoria e defesa. O veredicto deve sair no mesmo dia, dizem os advogados.

Veja imagens do julgamento do goleiro:

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