'Macarrão merece redução de pena', diz promotor. Defensor minimiza 'sequestro'

Fase de réplicas e tréplicas foi usada pelo promotor, assistentes de acusação e advogados de defesa para reforçar suas teses apresentadas durante o último dia de julgamento

Carolina Garcia - enviada a Contagem (MG) | - Atualizada às

O clima de embate entre a defesa e acusação aumentou no Fórum Criminal de Contagem, em Minas Gerais, durante o período de réplica no quinto dia de julgamento dos réus envolvidos no desaparecimento de Eliza Samudio. Um dos pontos altos da segunda fala do promotor Henry Wagner Vasconcelos foi o reconhecimento do efeito que a confissão parcial de Macarrão e suas consequências. “A confissão tem um papel legal devidamente definido, que é a redução de pena. Todavia o papel de planejamento de um delito é uma circunstância agravante. Macarrão merece redução de pena, mas certamente deve ser condenado.”

Saiba tudo sobre o julgamento
1º dia: Desgastante, primeiro dia de julgamento do caso Bruno é pouco produtivo
2º dia: Decisão de Bruno e denúncia de promotor surpreendem no 2º dia de julgamento
3º dia: Depoimento de Macarrão encerra o dia mais longo do julgamento
4º dia: Fernanda assume ter mentido ao depor e diz que não via Eliza como rival

João Miranda/O Tempo/Futura Press
Luiz Henrique Romão, o Macarrão, em sessão do quinto dia de julgamento do Caso Bruno

O representante do Ministério Público reconheceu ainda o “plano inteligente” da defesa do réu. “A confissão foi inteligentemente planejada. Se ele confessasse todo o crime sozinho, seria uma ação de jumentalidade”, afirmou o promotor olhando para o lado direito do plenário, onde estão sentadas as equipes dos defensores e seus assistentes. Já para Fernanda, que seria “apenas uma peguete” a absolvição seria uma injustiça. “Ela [Fernanda] se envolvia com Bruno havia meses. Sabia da existência de Dayanne, ex-mulher do goleiro. Eles tinham diversos ‘revivals’ [reencontros, em inglês]. Somente o olhar vesgo e míope dessa defensora não poderia enxergar a culpa dela.”

Um momento que o promotor pediu atenção aos jurados foi durante a apresentação de um álbum de fotos parcialmente queimado, encontrado nas mediações do sítio do goleiro Bruno, na região de Esmeraldas, onde Eliza teria sido encarcerada dias antes de sua morte. O objeto tinha partes de fotografias que seriam da ex-modelo com seu filho e foi encontrado por um jornalista da Folha de S. Paulo. “Peço atenção para esse pedacinho da foto com os pezinhos de bebê, aqui, com as meias Puma. Guardem na memória, pois logo mostro para vocês essas fotos no próprio computador de Eliza, que só não foi destruído porque não foi levado ao sítio.”

Ao atribuir a Macarrão todo a logística do crime, “que de bundão nunca teve nada”, Vasconcelos fez duras críticas ao sistema judiciário do País. “Ele sairá daqui com pena que vai tender a 12 anos. Se houver uma missa de quinto ano da morte de Eliza, ele terá chance de estar lá porque essa é a nossa lei. Caso seja condenada, Fernanda pegará três anos e poderá cumprir regime domiciliar. Aqui no Brasil, isso é rua! Não há condições de fiscalizar.”

Para ele, o Tribunal de Justiça cometeu um erro ao dar o direito de responder a liberdade ao Sérgio, primo de Bruno. “Ele foi colocado na rua porque era importunado por esses advogados inescrupulosos. Ao deixá-lo ir, o tribunal assinou sua sentença de morte”. Ainda segundo o depoimento do Sérgio, que também era réu no processo, mas foi assassinado em agosto deste ano, Macarrão teria dito: “Ô, Bruno. Tá na hora” – quando havia chegado o momento de levar Eliza para a morrer.

O nome de José Laureano, o Zezé, que seria outro suspeito de assassinar Eliza também foi mencionado durante os argumentos da promotoria. “É sim suspeito, mas não foi denunciado”, disse olhando em direção à advogada Carla Silene, que ouvia atenta sua fala. “Só não foi denunciado porque não era eu o promotor. Comigo boi deitado, não é vaca. É boi deitado mesmo”, disse arrancando risos da plateia.

“Sequestro como esse eu queria”

Ao iniciar o período das tréplicas das defesas de Macarrão e Fernanda, por volta das 19h40, o advogado Leonardo Diniz volta a se posicionar a frente dos jurados para pedir “uma condenação justa” ao seu cliente, o de homicídio simples com pena prevista de 6 a 12 anos de prisão. “Uma das qualificadoras do homicídio triplamente qualificado é o motivo torpe, que seria por não reconhecimento de paternidade e não pagamento de pensão alimentícia. Pergunto a vocês, é justo condená-lo por isso? Por não reconhecer um filho que não era seu?”.

O defensor pediu inúmeras vezes justiça ao Macarrão, que já teria a vida inteira comprometida pelo envolvimento no caso. “A vida dele acabou, senhores. Será reconhecido no País inteiro por onde quer que ele vá. Não podemos fazer da confissão um ‘desconvite’. Não podemos desencorajar um criminoso a confessar.”

Em relação ao crime de cárcere, para ele, ficou comprovado pelos autos que não houve ato encarceramento. “Sequestro como esse eu queria. Um sítio lindo daquele”, disse Diniz apontando falhas na investigação. Para ele, Eliza estava sim a passeio e teria sido bem tratada durante todo o período que passou com os “amigos de Bruno”. E finalizou: “Não se condena pisando em areia movediça, jurados. Na dúvida, melhor soltar o culpado do que prender o inocente.”

A ‘peguete’ conheceu a família de Bruno

Fernanda voltou ao plenário para acompanhar o final dos trabalhos com uma Bíblia nas mãos. Ela não ouviu as falas do promotor. A defensora Carla Silene começou a falar às 20h30 e teve uma hora para defender sua cliente diante dos jurados. Os ataques não pararam, Carla começou seu período de tréplica atacando Vasconcelos pedindo a ele “que elevasse não apenas a voz, mas seus argumentos. Quem precisa de holofotes é quem não tem luz própria.”

A advogada atacou fortemente os adjetivos dados pelo promotor anteriormente. “A chamada ‘peguete’ conheceu a avó de Bruno, sua família. Eles tinham planos de morar na Itália e constituir família”. Reforçando sua tese, Carla citou o excelente convívio das três mulheres de Bruno em plenário: Dayanne, Fernanda e Ingrid. “Em nenhum momento houve desrespeito. Ele [desrespeito] partiu do senhor promotor e não dos sujeitos desta história”.

Sua cliente Fernanda à época do crime passou quatro meses na prisão. “Isso não se paga, já marcou a vida dela. Mas há um paliativo, a absolvição”. Carla Silene encerrou sua fala antes do previsto e teve momento de desabafo dizendo que temia por sua filha namorar um criminoso. “Temo por ela, que eu se envolver com o homem errado, possa pagar por um crime que não cometeu”

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