"Somos uma família justa", diz jurada antes do terceiro dia de julgamento

iG relata rotina no hotel onde sete pessoas que decidirão o destino de Fernanda Gomes e Luiz Henrique Romão, o Macarrão, estão hospedadas; Bruno será julgado em 2013

Carolina Garcia e Ricardo Galhardo - enviados a Contagem (MG) | - Atualizada às

Carolina Garcia
Jurados tomam café da manhã em hotel antes de ir a sessão do julgamento do Caso Bruno, em Contagem (MG)

Nos últimos dias, o Contagem Centro Hotel adotou uma nova rotina. Isso não só pela proximidade ao Fórum Criminal, onde é realizado julgamento do Caso Bruno, mas também porque hospeda os jurados e testemunhas de defesa do processo. E não é difícil perceber a movimentação de policiais militares no 2º andar do prédio. É lá que estão os quartos do corpo de jurados, composto por sete pessoas, que irá decidir o futuro dos réus Macarrão e Fernanda. O ex-goleiro Bruno, sua ex-mulher Dayanne Rodrigues e o ex-policial Marcos Aparecido, o Bola, serão julgados somente em março de 2013.

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O dia começa cedo para o júri, grupo de seis mulheres e um homem, que são moradores de Contagem e encontram-se à disposição da Justiça até o final do julgamento. Na terça-feira (20), por exemplo, por volta das 7h30, os sete integrantes do Conselho de Sentença foram levados por três oficiais de Justiça e escolta militar ao refeitório para o café da manhã e foram divididos em duas grandes mesas, previamente reservadas para eles.

Cansados e até pressionados pela posição que ocupam no julgamento, eles receberam “um presente” dos oficiais. Cada jurado teve a oportunidade de realizar uma ligação para a família. Porém, com algumas restrições: a conversa deveria ser breve, o processo não poderia ser citado e o diálogo deveria ser acompanhado pelo viva-voz. “É rapidinho”, disse o oficial como se tentasse conter a alegria da primeira jurada que fez uso do presente.

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Corredor vazio no 2º andar do hotel em Contagem

Curiosamente, o afago veio após a juíza Marixa Fabiane Lopes avisar em plenário que, a partir do sorteio, todos passariam a ficar incomunicáveis - algo que é definido por lei e, caso não seja cumprido, pode ocasionar a nulidade de um Tribunal do Júri. Permitida pela juíza, a última ligação oficial para a família deveria ter sido realizada ali no plenário na segunda-feira (19), durante o primeiro dia de julgamento.

Uma senhora mulata, de 45 a 50 anos de idade, a mais velha entre as juradas, foi a primeira a ligar para a casa. Ela escolheu sua mãe, que pelo tom da conversa, acompanhada pelo viva-voz, sofria com a ausência da filha em casa. “Que bom ouvir sua voz, querida. Estou com saudades”, disse a mãe enquanto a filha tentava conter o choro e era amparada pelos outros companheiros de júri. “Eu também estou, mãe. Logo volto para ficar com a senhora”, respondeu já com a voz embargada.

Visivelmente, ela é quem mais sofre por estar retida no hotel. Já mais tranquila e com semblante feliz, ela devolveu o telefone ao oficial e agradeceu. Após o sorteio do júri, a tal senhora foi a segunda aceita pela acusação e defesa e chorou ao saber que ficaria à disposição da Justiça entre 10 a 15 dias, previsão inicial de duração do julgamento. Em reposta, a juíza chegou a solidarizar com ela e dizer que também não apreciava ficar longe dos seus "filhos amados".

Naquela manhã durante o café, todos tiveram a mesma oportunidade. Alguns aproveitaram o momento para pedir pertences que foram esquecidos pelos familiares nas entregas das malas. Uma jurada branca, com longos cabelos negros e batom vermelho, de aproximadamente 35 anos, ligou para um homem, que parecia ser seu marido. “Preciso de um secador, shampoo e condicionador, por favor”, disse ela enquanto notava que as ‘novas amigas’ celebravam a possível chegada do primeiro item.

Na manhã seguinte, na quarta-feira, o ambiente continuava descontraído. Às 7h15, todos foram encaminhados ao refeitório falantes e aos risos. Hoje não foram permitidas ligações aos familiares. A denúncia do promotor Henry Wagner Vasconcelos fechou o cerco e exigiu mais atenção dos oficiais. Com a chegada de um quarto funcionário do TJ, o suposto flagrante veio à mesa. "Pode revistar minha bolsa pela terceira vez se achar necessário", disse uma das juradas confiante.

A afirmação despertou risos e simpatia do oficial que respondeu com um sincero "confio em vocês". Neste terceiro dia, o clima estava leve e nada parecido com os primeiros dias do julgamento. Aos risos, a senhora que antes tinha uma expressão triste no rosto passa a fazer parte de um novo grupo. "Somos uma família justa", disse colocando sua mão suavemente no braço do oficial.

O corredor na madrugada

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Oficial conversa com amigas no corredor do hotel

O jantar é servido nos quartos dos hóspedes, por volta das 21 horas, sempre por policiais militares. A partir do momento que eles deixam as dependências do fórum, todos os jurados devem permanecer no hotel. Funcionários do estabelecimento não negam a mudança da rotina. “Agora temos mais policiais nos corredores do que hóspedes, mas faz parte e vamos aprendendo com a nova situação”, disse uma das funcionárias que pediu para não ser identificada.

O hotel está em funcionamento há 20 anos e nunca foi escolhido para receber testemunhas e jurados de um julgamento. “Nunca vi, mas acho que o fórum não costuma receber julgamentos desse porte. A cidade só fala sobre esse caso”. Segundo ela, todos os procedimentos de reserva de vagas e administração do quarto foram realizados pelas equipes do Tribunal de Justiça. A funcionária não soube dizer ainda se os televisores e telefones foram removidos dos quartos.

A vigilância dos jurados no corredor do segundo andar também é questionável. Durante as madrugadas até o início das manhãs de terça e quarta-feira, conversas e risadas em alto volume foram ouvidas nos corredores entre os oficiais. Nesta última noite, três oficiais debatiam no quarto 428 os bastidores do julgamento, a postura da magistrada e o futuro dos réus. As conversas podiam ser ouvidas em quartos ao lado. Sentada em uma simples cadeira de metal, como na foto ao lado, uma funcionária do TJ divide seu tempo de vigilância com as amigas oficiais de Justiça. Por cinco minutos, entre 23h48 e 23h53, o posto chegou a ser abandonado.

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