O que o genoma pode fazer pela sua saúde

Presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica fala o que virou realidade em 10 anos de pesquisa em genética

Chris Bertelli, iG São Paulo |

O projeto Genoma Humano completa 10 anos, mas pouco do resultado de tanta pesquisa pode ser visto na prática. O iG conversou com o presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, Salmo Raskin, para saber como estão as pesquisas, quais os serviços disponíveis no País e o que esperar do futuro dessa área. Para ele, em cinco anos será possível pagar pelo seqüenciamento do seu DNA. Confira a entrevisa.

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Salmo Ráskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica: "O medo da discriminação genética existe, mas ele pode ser contornado com atitudes práticas"
iG: O Brasil foi o primeiro país no Hemisfério Sul a contribuir com o Projeto Genoma Humano. Qual o papel do país hoje nessa área?
Salmo Ráskin: O papel do Brasil foi muito pequeno. O Estado de São Paulo acordou para o projeto em 1998 e – com verbas da FAPESP – conseguiu colocar equipamentos de sequeciamento em algumas instituições paulistas. Os principais avanços foram feitos na área de genoma do câncer, em colaborações para a determinação de várias seqüências relacionadas à doença. O Brasil também contribuiu em partes relacionadas a genoma de frutas e teve uma participação pontual em doenças degenerativas.

iG: Como é prestação de serviços genéticos no País?
Salmo Ráskin: Uma catástrofe. A segunda causa de mortalidade infantil há 20 anos são anomalias congênitas, problemas relativamente frequentes, que acometem uma criança a cada mil nascimentos. Seria possível avaliar a possibilidade de um casal ter problemas como esse com exames simples. Há um projeto pronto de inclusão da genética na política nacional do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas parece que não há o interesse de colocá-lo em prática. Em janeiro do ano passado, o ministro da saúde (José Gomes Temporão) publicou uma portaria incluindo o serviço genético no SUS. Um ano depois, nada aconteceu.

iG: Porque você acredita que isso acontece?
Salmo Ráskin: Porque muitas são doenças raras e pouco diagnosticadas. Não há interesse político, é um nicho pequeno.

iG: Como é o projeto?
Salmo Ráskin: O projeto que está pronto prevê centros de referência em genética médica para cada dois milhões de habitantes: seriam 100 centros coordenados por médicos geneticistas que trabalhariam com uma equipe multidisciplinar. Seria o suficiente para atender a população tranquilamente.

iG: O País tem médicos suficientes para essa demanda?
Salmo Ráskin: Temos poucos médicos geneticistas no Brasil, são aproximadamente 200 em todo o País, sendo que 80% estão nas regiões sul e sudeste. A implantação dos centros aumentaria o mercado de trabalho para futuros geneticistas. Seria possível melhorar o atendimento à população e incentivar mais jovens a seguirem essa carreira.

iG: O que falta para o Brasil avançar no assunto é genética?
Salmo Ráskin: O fundamental – e não sei se é a raiz de todos esses problemas – é a educação. Falta inserção de uma disciplina de genética médica em medicina, nem todas as faculdades do país tem. Como o médico vai saber sobre essas doenças se não tiver o conhecimento? Também falta acesso a esse tipo de informação para a população em geral.

iG: A medicina no Brasil ainda é muito focada no tratamento. Você acha que a genética pode trazer uma mudança nesse quadro?
Salmo Ráskin: A genética pode ajudar a inverter esse quadro, como no caso do câncer de mama. Dizem que o exame é caro, mas o tratamento também é. Quanto custa a internação de uma mulher com essa doença em uma UTI ou os remédios que ela tem de tomar?

iG: Dá para saber se os testes genéticos já disponíveis comercialmente são confiáveis?
Salmo Ráskin: Existem testes que teoricamente estudam o genoma todo para ver se você tem predisposição para alguma coisa. Eles têm sido criticados pela comunidade científica internacional porque ainda não há evidências claras para podermos oferecer algo assim, um check-up genômico. Primeiro, é preciso ir a um médico geneticista e avaliar se há a necessidade de um exame desse tipo. Senão, o objetivo é puramente econômico e não há serviço prestado.

iG: Como a população pode se proteger de testes fraudulentos enviados pela internet?
Existe uma maneira bem simples: pode mandar um e-mail para a Sociedade Brasileira de Genética Médica , que o especialista nesse assunto dá um retorno adequado.

iG: Exames como esses não podem facilitar a discriminação genética?
Salmo Ráskin: Pode, com certeza. Tanto é verdade que o país mais avançado nessa área – os Estados Unidos – passou uma lei chamada “ato de não discriminação por teste genético”. Eles já vivem isso com mais intensidade, então têm uma legislação enorme que proíbe empregador ou companhias de seguro de fazer testes genéticos.  como a dos norte-americanos.

iG: Quanto custa, em média, um exame genético sério?
Salmo Ráskin: De 500 reais – preço de um exame dos cromossomos para saber se a criança tem Síndrome de Down, por exemplo – a 15 mil reais, no caso do teste do câncer de mama.

iG: Esses preços tendem a diminuir?
Salmo Ráskin: Com certeza, um dos principais motivos dos preços ainda serem altos é a falta de demanda. Se os exames estivessem inseridos no Sistema Único de Saúde (SUS), o valor nas clínicas seria bem menor.

iG: A farmacogenômica, que estuda o papel dos genes na resposta do corpo aos medicamentos, já é uma realidade?
Salmo Ráskin: Respondemos aos medicamentos de forma diferente mas, hoje, duas pessoas com dor de cabeça tomam o mesmo remédio para tratá-la. Em alguns casos, já é possível fazer um teste genético antes de tomar o medicamento para saber se ele será útil para uma determinada pessoa.

iG: O que se pode esperar da genética daqui a alguns anos?
Salmo Ráskin: Acredito que em cinco anos poderemos ir ao médico e ele vai fazer o seqüenciamento completo do nosso genoma. Aquilo que o Projeto Genoma fez com três bilhões em 10 anos, vai ser feito em três meses e por quatro mil reais, por exemplo.

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