Banco de DNA no Reino Unido reunirá 500 mil voluntários

Com a ajuda dele, cientistas vão estudar como os hábitos de vida interagem com a genética para causar doenças

Leoleli Camargo, enviada a Londres e Oxford |

A meta é ambiciosa: recrutar 500 mil pessoas entre 40 e 69 anos e acompanhar a saúde delas até a morte. O objetivo é igualmente ousado: usar o DNA obtido em amostras de sangue, saliva e urina para entender como o estilo de vida interage com a genética de cada indivíduo para culminar em doenças como câncer, infarto, hipertensão ou Alzheimer.

No dia do aniversário de 10 anos do seqüenciamento completo do Genoma Humano o projeto britânico, batizado de Biobank, estará muito próximo de completar a meta de recrutamento estabelecida em 2003, quando o Wellcome Trust britânico – instituição sem fins lucrativos dedicada ao financiamento de pesquisas sobre saúde – e o Sistema Nacional de Saúde inglês se uniram a 20 universidades e institutos de pesquisa para montar um dos maiores e certamente o mais abrangente banco de DNA do planeta.

O objetivo do Biobank é acompanhar os participantes por meio de seus registros médicos no sistema de saúde britânico e usar, no futuro, as amostras de DNA congeladas e armazenadas em pesquisas científicas para avaliar melhor o papel dos genes e do ambiente no processo de adoecimento.

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Rory Collins, líder do projeto: banco beneficiará cientistas de todo o mundo
“O banco permitirá estudar uma ampla gama de doenças. Queremos pesquisar a interação entre diferentes variáveis ao longo de muito tempo. Para isso, precisávamos coletar um grande número de dados de um número ainda maior de pessoas” justifica Rory Collins, professor de medicina e epidemiologia da Universidade de Oxford e pesquisador líder do projeto. “Com um banco do tamanho do nosso será possível inclusive estudar algumas doenças em seus estágios mais iniciais”.

Para conseguir uma amostra bem representativa da população foram espalhados 21 centros de recrutamento pela Escócia, País de Gales e Inglaterra. Como a iniciativa está diretamente ligada ao Sistema Nacional de Saúde – onde estão registrados todos os britânicos que alguma vez utilizaram um hospital público ao longo de suas vidas – os voluntários são chamados de acordo com a proximidade física de um centro de recrutamento. O convite é feito por carta. Muito civilizado.

 Causa nobre

A correspondência já chega à casa do participante em potencial com uma opção de data para fazer os testes e recolher as amostras que serão armazenadas no banco. Fica a critério de cada um ignorar a carta ou responder ao convite comparecendo ao local no dia e hora marcados.

O vendedor inglês Carl Bethan, 47 anos foi um dos convocados. Apareceu cedinho da manhã em um dia de folga que tirou do trabalho só para doar seu DNA ao Biobank. Casado e pai de um adolescente, ele conta que decidiu atender ao convite por que o projeto lhe pareceu uma “uma boa causa”. Como boa parte dos participantes Bethan sabe que os resultados práticos da gigantesca iniciativa não serão imediatos.

“Meu palpite é que, se nos próximos 20 anos eu tiver alguma doença, eles vão conseguir olhar para trás e entender porque eu adoeci com base no que eles forem acompanhando da minha saúde ao longo desse tempo todo” arrisca. Se pudesse escolher uma doença para os cientistas pesquisarem a fundo escolheria, o câncer e as doenças cardíacas. “Minha família tem antecedentes de infarto. Sou do Norte. É um traço comum de quem vive lá”.

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O voluntário Carl Bethan é medido pela equipe de enfermagem do Biobank: "por uma boa causa"
Nem todos os selecionados atenderam ao convite. Para recrutar 500 mil participantes a organização do projeto estima que tenham sido enviadas perto de 6 milhões de cartas. Quando a meta de participação for batida, uma em cada 100 pessoas que vivem no Reino Unido terá seu DNA congelado no Biobank.

“Parando para pensar nisso, é impressionante como conseguimos motivar e trazer tanta gente para os centros de recrutamento” avalia o jornalista Andrew Trehearne. Responsável por abastecer de informações um importante aliado na divulgação do projeto, a imprensa, Trehearne é um dos profissionais encarregados de conduzir a estratégia de divulgação do banco de DNA à opinião pública.

Bateria de testes

No centro de recrutamento o voluntário recebe um kit com informações sobre como será a coleta de dados e amostras e o que ocorrerá com a doação. Depois de esclarecer eventuais dúvidas e de assinar um termo de consentimento informado da doação de seu material genético o voluntário responde a um longo questionário sobre sua saúde com perguntas sobre o estilo de vida, alimentação e doença que teve ou tem.

Em seguida são feitos testes de audição e cognição, aferição da pressão sanguínea, medição de variáveis como capacidade pulmonar, força muscular, peso, altura, circunferências do corpo, acuidade visual, capacidade cardiorrespiratória (em uma bicicleta ergométrica) e por fim coleta de sangue e amostras de saliva e urina.

Ao final da doação, ainda é preciso responder a mais um dicionário focado apenas em hábitos alimentares. Quem opta por doar cerca de duas horas de um dia útil para a ciência recebe como recompensa imediata alguns resultados de seus testes (cardiovascular, pressão sanguínea, peso e altura) e dicas úteis sobre saúde e qualidade de vida. Para quem aceita integrar o projeto, claro, a recompensa imediata é o que menos importa.

“Não me importo de esperar. Vim porque acho que será útil para as gerações futuras. Já aprendemos muito com o passado e eu, em algumas décadas, serei o passado (risos). Então acho que poderei contribuir com algo para melhorar a vida dos que vêm por aí” diz o comerciante Richard Allen, de 57 anos. Ele enfrentou um frio de 10 graus para ir coma mulher ao centro de recrutamento de Hounslow, no oeste da capital inglesa, fazer a sua doação.

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Para a aposentada Elizabeth Jawff, resultados beneficiarão as próximas gerações
Esperança x ceticismo

A iniciativa de criar um banco de DNA britânico deve consumir cerca de 66 milhões de libras, um investimento considerável para um projeto cuja relação custo-benefício, hoje, ainda é impossível de mensurar. A verdade é que nenhum cientista ligado ao projeto tem a exata dimensão do que terá nas mãos dentro de 30 anos. O pesquisador-chefe do Biobank, professor Rory Collins, arrisca bons palpites, mas sabe que as amostras e os dados coletados e armazenados durante as próximas décadas podem muito bem se mostrar incompletos ou até mesmo insuficientes.

Mas quem participa como voluntário, em geral, nem chega pensar nessa possibilidade. Para grande parte dos doadores, a esperança de que, em duas ou três décadas, seu material genético terá contribuído para a cura de alguma doença maldita – o câncer encabeça essa lista – suplanta qualquer dúvida ou temor de que, no fim das contas, o Biobank britânico não valha o trabalho que deu.

Quando confrontada com essa possibilidade,, de 61 anos, escolhe o otimismo: não tem medo do que possa ocorrer com as amostras e só espera que sejam bem guardadas “e que sejam de fato usadas para pesquisa e não esquecidas em um canto qualquer”.

“Com tudo o que se sabe hoje sobre tantas doenças, é absurdo que no século 21 tanta gente ainda morra por causa delas. Se essa pesquisa conseguir desenvolver testes para identificar precocemente alguma doença importante já ficarei feliz. Estou fazendo isso por meus netos. Não por mim” diz.


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