Arqueologia molecular desvenda os mistérios do passado

União entre genética e outras áreas mais tradicionais tem gerado novos conhecimentos sobre a origem e a dispersão do homem

Thiago André, especial para o iG |

A arqueologia molecular, área do conhecimento que vêm ganhando força por conta das novas possibilidades de estudo das proteínas que compõem o DNA, se propõe a estudar estruturas genéticas de vestígios materiais ou orgânicos de povos antigos para, entre outras coisas, desvendar os mistérios relacionados à origem e à dispersão da espécie humana pelos cinco continentes.

Um dos resultados desse casamento perfeito entre a genética e outras áreas do conhecimento mais tradicionais, visando a revelar dados históricos e até por em xeque teorias paleontológicas, pôde ser visto há pouco mais de um mês, quando novos estudos mostraram que os seres humanos, ao contrário do que se imaginava, carregam alguns genes dos neandertais.

“A partir de DNA extraído de esqueletos, comprovou-se que os Europeus e as populações do Oriente Médio carregam 4% de genes de neandertais. Esses achados mudaram completamente nossa visão sobre a evolução do Homo sapiens e do Homo neanderthalensis, mostrando a toda a comunidade científica que a arqueologia molecular está sendo capaz de produzir dados que a morfologia não consegue revelar”, disse Walter Neves, pesquisador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O trabalho, publicado em maio desse ano na revista Science com o titulo “A Draft Sequence of the Neandertal Genome”, descreve o sequenciamento do genoma dos neandertais, que desapareceram há mais de 30 mil anos. O grupo internacional de cientistas concluiu que os neandertais teriam cruzado com representantes do homem moderno, sugerindo que pedaços de seu genoma estão presentes em grande parte da população mundial atual.

Walter Neves explica que, com o sequenciamento genético dessas espécies do passado, os cientistas estão tendo acesso a dados históricos inéditos que servem para comprovar teorias defendidas em todo o mundo. Uma das mais conhecidas, o “Out of África”, afirma que o homem moderno teria surgido na África em duas ocasiões distintas. Em um primeiro momento, ele teria dado origem a outras espécies que logo foram extintas, e, num segundo período, entre 150 mil e 195 mil anos atrás, teria aparecido em sua forma moderna de Homo sapiens.

“Tudo o que os cientistas estão conseguindo comprovar do ponto de vista molecular têm servido para confirmar a teoria do ‘Out of África’, que é muito séria e legítima”, aponta. “O estudo da variabilidade genética da humanidade, desde os tempos mais remotos, vêm nos permitindo entender melhor detalhes dessa saída do homem da África. E sabemos que há uma crescente perda de diversidade genética à medida que essas populações foram habitando as periferias do mundo”, explica Neves.

Segundo ele, a arqueologia molecular é uma área relativamente nova que vêm se consolidando há dez anos. “Os resultados dos trabalhos se tornaram mais visíveis apenas nos últimos cinco anos, conquistados por uma meia dúzia de grupos de pesquisa fortes nessa área, sobretudo no Instituto Max Planck, na Alemanha, e na Universidade de Copenhague, na Dinamarca”, afirma.

O Brasil, por sua vez, ainda não possui laboratórios totalmente especializados em arqueologia molecular devido à complexidade dos procedimentos e ao alto nível de segurança que os trabalhos demandam. Isso para que não haja poluição de outros tipos de DNA extraídos de organismos vivos mais recentes. “Como a contaminação é um problema muito sério nessa área, inclusive por DNA humano, a montagem de qualquer infraestrutura básica de um laboratório é muito cara. Por isso os estudos em nosso país ainda estão em suas fases iniciais”, explica.

Para ele, apesar de o futuro da área ser promissor, os pesquisadores não podem cair na “ditadura do DNA”. “Muitas vezes, um padrão de diversidade genética de um organismo específico pode ter várias explicações. Por isso, é muito importante que os estudos genético-moleculares sejam sempre acompanhados de análises de morfologia [estudo da forma e da estrutura dos seres humanos]”, conclui Neves.

    Leia tudo sobre: genoma humanosequenciamentodez anos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG