Terry Eagleton quer prender o papa

Crítico britânico defendeu religião, mas atacou igreja, Dawkins e Rushdie

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Primeiro dia da programação sem referência ao homenageado Gilberto Freyre, o sábado começou em alta voltagem na Flip. O crítico britânico Terry Eagleton comandou a mesa “Andar com Fé”, concebida desde o início como contraponto àquela com o historiador ateu Richard Dawkins no ano passado. Dawkins foi tema constante na conversa, assim como o escritor Martin Eames e o jornalista Christopher Hitchens, desafetos de Eagleton, mas ele foi mais longe. Ferino, dono de um humor elaborado, ácido e inteligente, tipicamente inglês, deu trabalho ao mediador Silio Boccanera, que suspirava no microfone ao vê-lo criticar perguntas ou ir por um caminho diferente do esperado.

Frâncio de Holanda
Eagleton: "Todo mundo tem fé em alguma coisa"
Já tachado pela imprensa conservadora britânica como um “marxista religioso velho e punk”, Eagleton não gosta muito do rótulo, que se aplica muito bem a suas ideologias (exceto, educadamente, a parte do velho). Segundo ele, a sociedade atual está presa na dialética entre fé de menos e fé demais, como se não houvesse uma terceira via possível. Dawkins, acusado de fazer uma abordagem “progressista racionalista do século 19”, se enquadraria no primeiro caso.

“Para Dawkins, acreditar em Deus é como acreditar em ETs, Pé Grande ou no Monstro do Lago Ness. Muitas pessoas têm crenças e nem todos precisam acreditar nelas”, disse. “Dawkins realmente acredita que toda fé é cega, que fé e razão são coisas completamente separadas, mas não é o caso do amor e razão, por exemplo.”

O debate seguiu por essa seara e não foi pelo campo do darwinismo, principal argumento de Dawkins para rejeitar a existência divina, mas mesmo assim rendeu belíssimos momentos. Criado como católico, Eagleton diz odiar essa palavra, por lembrar de um regime opressivo e patriarcal. “Quando o papa pôr os pés na Grã-Bretanha, quero providenciar sua prisão”, atacou. A Teologia da Libertação, porém, desenvolvida inicialmente na América Latina, lhe parece bem mais interessante. “Todo mundo tem fé em alguma coisa, algo que você descobre que não pode abandonar, mesmo que queira, mesmo que esteja pregado na cruz. Isso é o que caracteriza a humanidade.”

Boccanera citou um artigo recente em que Eagleton afirma que o novo ópio do povo não é a religião, mas o futebol. Brincando com o fato de estar no Brasil e de saber nada do esporte – “o que prova que ignorância nunca me impediu de fazer nada” –, o autor de Por que Marx Estava Certo , previsto para 2011, sustentou que esse é um mecanismo do próprio sistema capitalista, sempre apoiado por uma forma simbólica de poder, com a qual não se pode rivalizar. “Se a religião começa a falhar, procura-se outra coisa, e uma delas é a cultura. Não a cultura de Balzac, Beethoven, mas um estilo de vida. O futebol é um deles, com tradição, mística, assim como o nacionalismo, a mais bem-acabada forma moderna de religião.”

Sobraram farpas também para alguns dos grandes nomes da cena literária britânica, como Ian McEwan e Salman Rushdie, convidado desta edição da Flip. Eagleton acha irônico que essa geração, responsável por execrar o islamismo no passado, seja hoje arauto do liberalismo literário. Na noite de ontem , Rushdie havia reclamado que Eagleton exagerava em suas críticas, ao afirmar que ele não via distinção entre o Islã e o Islã radical.

“Há uma linha fina entre tolerância e fobia do Islã”, respondeu Eagleton. “De alguma forma, com o fim da União Soviética, precisou-se de um novo bicho papão. O fundamentalismo e a barbárie ficaram para o Oriente, enquanto a civilização para o Ocidente. A barbárie não está só lá. Quero que eles [os autores] falem isso em alto e bom som. Marx já dizia que civilização e barbárie são lados da mesma moeda.” O público aplaudiu com força, em um dos destaques até agora da festa em Paraty.

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