Rushdie diz que não tem interesse nas religiões contemporâneas

Autor de "Os Versos Satânicos", escritor britânico apresentou seu novo romance

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O escritor Salman Rushdie durante a 8º Festa Literária Internacional de Paraty
RIO DE JANEIRO - O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie, autor de "Os Versos Satânicos", romance pelo qual foi condenado a morte pelo aiatolá Khomeini em 1989, assegurou nesta sexta-feira que não está interessado nas religiões contemporâneas, e que aprende muito com as religiões passadas.

"As religiões desaparecidas enriquecem muito mais a literatura. As pessoas que acreditam em religiões atuais creem que já têm as respostas para tudo, e a mim interessa muito mais buscar as respostas", disse o escritor em um debate durante a oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

A fama de Rushdie como escritor começou com a polêmica de "Os Versos Satânicos" (1988), um romance simbólico cheio de referências à religião muçulmana, que causou a ira dos fundamentalistas islâmicos e valeu a condenação à morte por parte do líder iraniano.

Nascido no seio de uma família muçulmana rica na Índia, Rushdie foi enviado à Inglaterra aos 13 anos, e se formou na Universidade de Cambridge, uma formação ocidental que permitiu mostrar uma visão crítica sobre muitos temas vetados pelos fanatismos. "A Índia como país nasceu em um momento de muita violência e, como fruto dessa geração, você pensa em como evitar que isso se repita", explicou, e acrescentou que ele mesmo nasceu em um contexto de fanatismo religioso antes de receber a condenação de Khomeini.

Livro para o caçula

Rushdie, que já participou da Flip em 2005, apresentou seu novo romance, "Luka e o Fogo da Vida", que escreveu para seu filho pequeno, Milan, quando soube que o pai tinha escrito "Harun e o Mar de Histórias" (1990) para seu irmão mais velho. "Sem ele (Milan) não haveria livro. Quando leu o livro que escrevi para o irmão, perguntou: 'Onde está o meu?'", brincou Rushdie.

Em "Luka e o Fogo da Vida", Rushdie recupera a trama do contador de histórias que aparece em "Harun e o Mar de Histórias" e acrescenta um novo protagonista, o pequeno Luka, que ajuda seu irmão mais velho, Harun, em sua aventura para ajudar o pai. O próprio autor comparou "Luka e o Fogo da Vida" com um videogame, dos quais seu filho é fã, embora, neste caso, o herói da história lute para salvar seu pai, em uma declaração de intenções sobre a dificuldade de manter os valores no mundo globalizado e despersonalizado.

Perguntado pelo auge dos dispositivos eletrônicos e o eventual desaparecimento dos livros impressos em papel, o escritor expressou sua esperança de que estes acabem sobrevivendo a "todas essas modas" da era tecnológica. "Rádio, cinema, televisão... Tudo foi criado para assassinar os livros", afirmou Rushdie.

Embora o governo britânico e o Irã tenham assinado em 1998 um acordo para enterrar a condenação, o escritor segue recebendo ameaças de morte, um sentimento de perseguição eterno retratado em seu próximo livro, que já está pronto para ser publicado. Junto com Isabel Allende, que na quinta-feira compareceu à Flip para participar de um debate sobre sua obra, a participação de Salman Rushdie foi uma das mais importantes do evento, cuja programação vai até domingo.

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