Robert Crumb: "Me assusta que HQs sejam levadas a sério"

Em mesa com Gilbert Shelton, cartunista é uma das principais atrações da Flip

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Frâncio de Holanda
Os cartunistas Gilbert Shelton e Robert Crumb: história dos quadrinhos na mesma mesa
Dois senhores de idade avançada, barba branca e chapéus na cabeça entram na sala e é difícil relacionar essas figuras aparentemente pacatas e conservadoras com os quadrinhos mais famosos da cena underground norte-americana. Em poucos segundos a coisa muda de figura. Acuado pelos flashes, Robert Crumb, 66 anos, mostra o dedo do meio para um fotógrafo e enfia a mão na lente da câmera. O olhar é amistoso, brincalhão, mas já deixa claro que ele não está muito à vontade com a condição de estrela. Pois é, estrela: depois de Isabel Allende, Crumb é o maior figura popular desta edição da Flip, onde vai dividir no sábado uma mesa com Gilbert Shelton, 70, o pai dos famosos Freak Brothers.

A viagem para o Brasil chegou a ser uma surpresa, já que Crumb raramente deixa a França, onde vive há anos, assim como Shelton. Logo se descobriu o motivo: as mulheres, sempre elas. Além de esposa de Shelton, Lora Fountain também é a agente de Crumb. Ao receber o convite para vir a Paraty, uniu forças com a cartunista Aline Kominsky-Crumb e as duas garantiram, “vamos convencê-los”. Tanto funcionou que elas sentaram ao lado do maridos para responder as perguntas. Crumb parecia amuado e Shelton mostrava espanto com a sala lotada. “É a maior coletiva de que já participei.”

Frâncio de Holanda
Crumb pessimista: "A raça humana é sórdida"
Crumb aparentemente ainda não compreende muito bem a dimensão que sua obra ganhou. Autor de personagens clássicos, como Fritz, The Cat e Mr. Natural, também empresta seus talentos para a revista New Yorker e projetos especiais, como uma biografia em quadrinhos de Franz Kafka e sua recente adaptação do Gênesis bíblico para uma HQ. “Quando comecei, meu trabalho não valia nada. Fiquei surpreso quando começou a ser valorizado. Acho muito bizarro quando vejo meu trabalho pendurado numa galeria.”

A participação na Flip, uma festa literária, é encarada da mesma forma. “Também acho bizarro, porque minha cabeça continua encarando os quadrinhos como uma coisa inferior. Me assusta que as HQs agora estejam sendo levadas a sério. Elas se tornaram um produto economicamente viável para as editoras, e é por isso que estamos aqui.” Shelton faz a relação com a literatura de uma forma muito mais direta, já que o texto, para ele e Crumb, é a alma dos quadrinhos. “A história é que conta. Se o desenho for ruim e a história boa, funciona, e não o contrário.”

Avesso a entrevistas (e, segundo a mulher, a aeroportos, seguranças, câmeras, novas tecnologias, e por aí vai), Crumb disse que gostaria de ter vindo completamente anônimo, sem ser o centro das atenções. “Gosto de estudar, não de ser estudado.” Talvez esse seja um dos motivos para que ele tenha resolvido se mudar a França, onde mora com a família, mas o principal é o completo asco – essa é a palavra – que sente dos Estados Unidos.

Frâncio de Holanda
Crumb caminha nas ruas de Paraty
“Virou um estado fascista, corporativista, o pior do mundo. Obama tem boas intenções, mas não deve conseguir. Algumas coisas estão enraizadas demais, fortes. Eles estão destruindo o planeta, estamos com um grande problema”, lamentou. Voltar para lá, além dos laços criadas em solo francês, está fora de cogitação. “Não penso nisso, tenho vergonha de dizer de onde sou. Na verdade, tenho vergonha de dizer que no moro no planeta Terra... A raça humana é sórdida.”

O Brasil, aliás, surgiu como alternativa para a vida fora dos EUA. Shelton disse ter “adorado Paraty”, enquanto Crumb mostrou certo receio: “Acho que meus arquivos e discos provavelmente não se adaptariam bem ao clima daqui”. Colecionador notório de discos das primeiras décadas da indústria fonográfica, o cartunista incluiu uma música de Aracy Cortes, “Quero Sossego” (1931), na coletânea Hot Women: Singers from the Torrid Regions of the World (mulheres quentes, cantoras das regiões tórridas do mundo). A peregrinação por LPs é um dos objetivos de Crumb no país. “Parece que é muito difícil encontrar música brasileira das décadas de 20 e 30. Se alguém aí tiver, pago um bom dinheiro.”

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