O Brasil de Gilberto Freyre em Paraty

Flip discute e analisa a atualidade da obra de um dos principais intérpretes do país do século 20

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

O cenário colonial de Paraty (RJ) parecerá feito sob medida para a conferência-homenagem a Gilberto Freyre (1900-1987) que abrirá, em 4 de agosto, a oitava edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A decifração da ordem sociopolítica estabelecida no (e pelo) Brasil-Colônia é a contribuição construída pelo sociólogo e antropólogo pernambucano desde o lançamento de seu primeiro livro, Casa-Grande & Senzala , em 1933.

Aristocrata criado, ele mesmo, num cenário de casa-grande & senzala, Freyre nasceu apenas 12 anos após a abolição da escravatura no Brasil. Cresceu num país que recebia levas de imigrantes europeus e apostava na crença da supremacia branca. Surgido 45 anos depois de os ex-escravos terem sido abandonados à própria sorte, Casa-Grande & Senzala abalou tal convicção ao traçar um retrato fértil e mais positivo que negativo das relações entre brancos escravizadores e negros escravizados.

Divulgação
Capa do livro Casa-Grande & Senzala
Freyre destacou a importância ímpar dos escravos para a formação do Brasil. Dedicou dois longos capítulos de seu livro fundador a descrever o papel desempenhado pelos africanos e seus descendentes na vida sexual e familiar brasileira – e por isso causou furor na intelectualidade brasileira dos anos 1930. O arianismo e a ideologia de supremacia branca foram atiradas ao segundo plano, pelo menos no nível do discurso, e Casa-Grande & Senzala conferiu status de elemento formador da alma brasileira à miscigenação. Desenvolveu-se a partir daí a compreensão do país como uma democracia racial (embora ele não empregasse originalmente esse termo).

A ambiguidade permeou desde sempre o pensamento de Freyre. Embora sua leitura favorecesse e legitimasse populações marginalizadas, dava-se do ponto de vista do que ele era – um cidadão do mundo aristocrático e até certo ponto defensor da escravidão que maculara o Brasil por quase quatro séculos.

Os críticos do pensamento freyreano nunca deixaram de aparecer, e denunciaram, por exemplo, a falsa imagem que ele teria passado, de relações coloniais forjadas entre senhores bondosos e escravos submissos (e felizes). Para os críticos, a naturalização dessas relações deixaria à sombra a violência sexual dos senhores sobre as escravas e o fato de que os filhos gerados por essas relações nasciam miscigenados, mas ainda destinados a abastecer a casa-grande de mão-de-obra escrava.

Ao longo da vida, Freyre foi contestado como conservador, também por episódios como a eleição para a assembleia constituinte de 1946 pela UDN, as ligações com o ditador português António Salazar e o apoio ao golpe militar brasileiro de 1964. O ideário de “democracia racial” é repetidamente questionado, até hoje, e no entanto Gilberto Freyre não deixa de se destacar como um dos principais intérpretes do Brasil do século 20. Sua permanência se deve, em certa medida, à ambivalência que pertenceu a ele e pertence ao país – libertário na celebração da miscigenação e da sexualidade brasileiras, Freyre esquematizou um Brasil que sobrevive ainda em 2010, nas favelas escondidas atrás de condomínios de luxo, nas grandes empresas cujos funcionários negros servem café e fazem faxina e nas casas de família construídas com um puxadinho para agregar e abrigar a empregada doméstica quase sempre negra, ou mestiça.

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