Na Flip, Claude Lanzmann crava: "Matar é um ato justo"

De mau humor e com uísque na mão, escritor francês fala de suas memórias como historiador do holocausto

Valmir Moratelli, enviado especial a Paraty |

E da falta de humor fez-se um dos momentos mais entusiasmados da Flip até o momento. O cineasta e escritor francês Claude Lanzmann, diretor de "Shoah" (1985), longa com cerca de nove horas de duração que reúne entrevistas com sobreviventes dos campos de concentração nazistas, falou à imprensa na tarde desta quinta (dia 7).

Beto Lima
O francês Claude Lanzmann bebe uísque durante entrevista na Flip

Logo no começo, reclamações sobre a cidade fluminense, em dias de frio beirando os 15º. "Este clima de Paraty está acabando com a minha saúde. Tem algum cemitério atraente aqui perto?", disse, carrancudo e com cara de pouquíssimos amigos. No caso, nenhum amigo, nem a intérprete, que ele parecia ignorar ao seu lado. "Estou lutando pela minha vida a cada minuto que fico neste lugar. É tudo tão úmido, que estou dando os últimos suspiros", e afirmou que é por isso que não para de tomar uísque.

Perguntou então se todos os jornalistas sabiam falar em francês. Como todos responderam que sim, ele soltou: "Ótimo, sou eu que vou fazer a primeira pergunta", disse, dando um gole no copo. Quis saber quem ali presente já tinha lido seu livro. Apenas um respondeu positivamente, o que o irritou bastante. Fechou a cara de vez.

"Não tenho muito o que falar se vocês não leram. Vai ficar bem difícil continuar essa conversa." Fez um duro silêncio de poucos segundos. Ao ser questionado se sua vida se resume apenas a uma leitura de livro, ele ensaiou um pequeno riso no canto da boca. E saiu falando de sua obsessão literária, a morte ou a crueldade humana. A que ele prefere dar outro nome.

"Não digo que é uma obsessão, mas uma realidade. Obsessão é algo que você não controla. Penso na morte a cada minuto que estou vivo. Existe vida e depois, o nada. Queremos viver, porque todos estão vivendo." Sobre velhice, não há nada que o chateie mais: "Estou chegando perto da morte e não consigo me conscientizar disso. Não sei o que é idade nem o que é velhice".

Beto Lima
O francês Claude Lanzmann
"Matar é um ato justo"

Antigo companheiro de Simone de Beauvoir (1908-1986), com quem se manteve casado por sete anos, Claude lança agora no Brasil o livro "A Lebre da Patagônia", na qual fala, entre suas memórias, da participação na Resistência Francesa à ocupação nazista.

O francês explicou que o outro lado do ato de morrer, o de matar, também deve ser repensado. "Quando você está numa guerra, você mata para não ser morto. Existe, portanto, momentos em que matar é um ato justo. Fiz um filme sobre o único levante bem-sucedido num campo de concentração. O herói, ainda hoje vivo, fala da alegria de ter enfiado uma machadada na cabeça de um nazista. Há aí o direito e o dever de se matar."

"Século triste"

Ainda que não pense na morte, é em um tom bastante nostálgico que Claude analisa sua história vivida intensamente no século passado. "O século 20 foi épico, e o 21 não tem nada de épico. É um século triste. As pessoas só se reproduzem, se alimentam, ganham dinheiro e não fazem nada mais de interessante", diz. Por isso, ele diz, a literatura atual anda fraca.

"Os autores modernos, sem inspiração, recorrem a certas coisas do passado, inverídicas na maioria das vezes, porque não viveram aquilo. Os autores de hoje não têm o direito de fazer análise de retrospectiva do que vivi", afirma. "Nunca se deve analisar o passado com os olhos do presente."

Questionado se não estava muito pessimista com o século 21, visto que ainda não se passaram nem duas décadas dessa nova era, ele emendou um de seus irônicos comentários: "Vocês são brasileiros, são de um país emergente. Estão emergindo, é normal que pensem assim".

Obscenidades históricas

Sobre a temática do holocausto, Claude diz que a única palavra que traduz a posição aceitável de se ter com essa barbárie humana é "espanto". "É mais fácil simplificar a questão para 'por que os judeus foram mortos?'. Por pura obscenidade. Como entender que 1,5 milhão de crianças foram assassinadas? Não há argumento que dê conta para explicar uma matança como jamais se viu."

Para quem não conhece suas obras e imagina que se tratam unicamente de assuntos nebulosos e tristes, ele avisa: "Existem coisas alegres e com humor no meu livro, podem acreditar. Inclusive com histórias sexuais envolvendo mulheres. Não tenham medo de mergulhar em minhas memórias".

No final, uma certeza. Cadê o mau humor que estava aqui? Claude Lanzmann tratou de matá-lo com prazer.

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