Lou Reed merece estar na Flip

A Festa Literária de Paraty recebe, no começo de agosto, um músico que honra a tradição dos grandes letristas do rock

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

Divulgação
Lou Reed ainda nos anos 90: temas incomuns e herança poética de Leonard Cohen
A oitava edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty (RJ), acontece entre os próximos dias 4 e 8 de agosto, e como de praxe já registra lotação esgotada em várias das mesas de debate programadas para a chamada Tenda dos Autores. Um dos encontros para os quais não há mais ingressos disponíveis é aquele com o cantor e compositor norte-americano de rock Lou Reed, hoje com 68 anos.

Não será propriamente novidade se um astro pop vier a roubar a cena na Flip. No ano passado, Chico Buarque foi à feira falar sobre seus romances e causou frisson como personalidade cultural e como celebridade – não era difícil encontrar, na longa fila de autógrafos, fãs do músico que jamais haviam lido um de seus livros. Estará Lou Reed destinado a cumprir a função de pop star da Flip 2010?

“Obviamente a gente não vai trazer a Madonna, mas é um evento para atrair público, não dá para não levar isso em consideração”, afirma o diretor de programação da feira, Flávio Moura. “Lou Reed é um perfil que tem a ver, não é um cálculo para tornar o evento mais pop. Ele não é um ficcionista no sentido estrito, mas tem envolvimento com literatura, escreve letras em uma tradição de alto nível, de Bob Dylan e Leonard Cohen.”

Ele compara as presenças de Chico Buarque, em 2009, e de Lou Reed, agora: “Chico tinha acabado de lançar um livro bom, era justificável. Mas tem, sim, um lado de culto à personalidade, que vai além disso. Não imagino o mesmo com Lou Reed. Ele não é uma figura muito extrovertida. É circunspecto, calado. Isso deve interferir, mas não tenho certeza”.

No caso de Lou, há também a justificativa literária. Tratada como “editora parceira” pela Flip, a Companhia das Letras sincroniza com a feira o lançamento de Atravessar o Fogo , versão em português de seu livro Pass Thru Fire – The Collected Lyrics (2000), reunindo todas as letras escritas até então pelo compositor. Na versão brasileira, os versos aparecerão em inglês e também traduzidas por Christian Schwartz e Caetano W. Galindo, em cerca de 800 páginas. O preço estipulado pela editora é de R$ 51,50.

Lou Reed carrega de fato uma série de vínculos literários, anteriores até à época em que se tornou conhecido, em 1967, como líder e principal compositor do grupo de rock The Velvet Underground, inicialmente apadrinhado pelo artista plástico (e figura de proa da pop art) Andy Warhol. Estudante de jornalismo, cinema e literatura na universidade Syracuse a partir de 1960, o futuro músico foi aluno do poeta Delmore Schwartz (1913-1966), a quem viria a tratar como mentor e a dedicar as músicas "European Son" (1967) e "My House" (1982).

Com o Velvet Underground, Lou arrombou limites comumente habitados pela música comercial, trazendo à frivolidade do pop temas densos e sombrios: sexo sadomasoquista ("Venus in Furs"), homossexualidade ("I’ll Be Your Mirror"), abuso de drogas ("Heroin", "I’m Waiting for the Man", "White Light White Heat"), depressão ("All Tomorrow’s Parties"), cirurgia de troca de sexo ("Lady Godiva’s Operation")… Não à toa, o Velvet passou longe das paradas pop e só se tornou mito após a dissolução da banda original, em 1970.

Rock adulto

Lou fez relativo sucesso solo a partir de 1972, com o álbum Transformer , também pautado por temas “underground”, em rocks como "Vicious" e "Walk on the Wild Side", talvez sua canção mais emblemática. Com o contundente álbum Berlin (1973), levou às mais profundas consequências a morbidez poética e investigação cruel sobre temas como suicídio, sexismo, violência doméstica, depressão e masoquismo. “São os olhos dela que se enchem de água/ e eu fico muito mais feliz assim”, cantava em "The Kids", sobre uma mãe que era separada à força de suas crianças.

Em carreira algo errática nas últimas três décadas, especializou-se num modelo de rock adulto, cru, de ligações cada vez mais frequentes com outras áreas das artes. Trabalhou com o encenador teatral Robert Wilson em Time Rocker (1996) e Poe-Try (2000). Nesse último espetáculo, investia sobre a obra de um de seus modelos cruciais, o sombrio poeta Edgar Alan Poe (1809-1849) – dali resultou o disco The Raven (2003), híbrido de rock, “spoken word” e poesia, com participação de cantores como David Bowie e atores como Willem Dafoe.

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Lou Reed durante show no Festival Lollapalooza, em Chicago, no ano passado
Seu trabalho mais recente foi como coprodutor do CD recém-lançado Homeland , da potente artista multimídia Laurie Anderson, misturadora de música, poesia, performance etc., hoje com 63 anos. Companheiros desde os anos 90, eles se casaram oficialmente em 2008.

Lou Reed também flertou com as artes gráficas, na primorosa edição original do livro Pass Thru Fire . Ali, o modo de apresentação das letras era um espetáculo à parte, como a se comunicar diretamente com a personalidade turbulenta do autor – que na adolescência foi submetido a eletrochoques que objetivavam “curar” impulsos homossexuais. À medida que as páginas do livro correm, as letras das canções sucessivamente se entortam, viram de ponta-cabeça, fazem curvas, círculos e espirais, evanescem, parecem escapar para fora das páginas. São ora distendidas e deformadas, ora ocultadas por tarjas pretas, ora rabiscadas. Às vezes, parecem ter sido respingadas por gotas d’água, outras aparecem em tinta branca borrada sobre fundo negro.

Atravessar o Fogo não conservará o projeto gráfico original, segundo o editor da versão brasileira, André Conti. “Nossa edição não se pretende uma recriação poética das letras do Reed. As traduções são literais, em verso branco, aproveitando que as letras dele são essencialmente narrativas. Achamos que o efeito do design original se perderia”, ele explica. “Nossa escolha foi trazer ao público o conteúdo, sem preocupação com o aspecto formal. Procuramos preservar o caráter narrativo das letras, e se fizéssemos isso sobre a diagramação original o risco era que tudo virasse uma salada.”

Em "The Gift", um estranhíssimo rock falado com oito minutos de duração lançado pelo Velvet Underground em 1968, um rapaz apaixonado se metia dentro de um caixote e se enviava pelo correio à casa da namorada (o final não era exatamente feliz). O pacote Lou Reed será entregue na feira de Paraty em 7 de agosto, num debate chamado “O Som e o Sentido”, mediado pelo jornalista Artur Dapieve. “Deve ser uma entrevista, com momentos de leitura das letras dele. Mas às vezes muda, os convidados podem ter outra ideia”, prevê Flávio Moura. O espetáculo a Lou Reed pertencerá.

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