James Ellroy e valter hugo mãe: a identidade da Flip 2011

Faltou polêmica, sobrou emoção na equilibrada programação da Festa Literária

Valmir Moratelli, enviado especial a Paraty |

Dois nomes se destacaram na edição 2001 da Flip. Dois nomes de perfis bem diferentes. valter hugo mãe e James Ellroy . Um pela emoção, outro pela polêmica.

O angolano naturalizado português valter hugo mãe emocionou o público ao relatar suas memórias, e a relação com uma família de brasileiros. A reação de quem assistiu a ele foi de aplausos efusivos. Naquele instante, valter conseguiu o que parecia impensável: ofuscou sua colega de debate, Pola Oloixarac. A novata argentina, alçada ao posto de "musa", foi perseguida nas ruas, deu dezenas de entrevistas e ainda assim não perdeu o jeito tímido ao posar para fotos. A autora de "As Teorias Selvagens" e valter hugo ficaram quase quatro horas autografando seus livros . Um recorde desta festa.

James Ellroy foi sarcástico como tinha que ser . Melhor, foi debochado na medida certa. Elogiou o lutador Eder Jofre e o compositor Heitor Villas Boas, ainda que sua paixão seja Beethoven. "Vocês queriam o quê? Que eu falasse mal de um brasileiro estando no Brasil?", perguntava ao público. No papo com a imprensa, Ellroy falou da visão conturbada que os americanos fazem do País . "Eles acham que aqui só tem pessoas nuas, sexo e esquadrões da morte", disse.

A presidenta Dilma Rousseff, que cancelou sua ida à Flip na última hora , perdeu a excelente abertura feita por Antonio Cândido , um dos maiores críticos literários da atualidade. O homenageado desta edição, Oswald de Andrade, também foi lembrado na leitura da peça "Tarsila", de Maria Adelaide Amaral , sobre a pintora modernista com quem foi casado. O show de abertura foi do performático Celso Sim e José Miguel Wisnik com participação "antropofágica" de Elza Soares. Um pouco antes de subir ao palco, a cantora conversou com a reportagem do iG no camarim, onde relembrou momentos de sua vida que, segundo ela, "daria um best-seller ".

Beto Lima
Leitura da peça lotou a tenda dos autores, com três mil lugares

Galanteios e bilhetinhos

Como classificar a participação de Claude Lanzmann em Paraty? Na coletiva de imprensa, mostrou-se arredio , impassível com os que não leram seus livros. Com copo de uísque na mão, seu mau humor foi superado pela bagagem histórica que carrega (ele lutou contra os campos de concentração nazistas). Já durante a mesa, para o público em geral, o cineasta de "Shoah" se fez de pura antipatia. Ameaçou até ir embora no meio do debate, por achar a mediação "débil". O clima úmido da cidade, que tanto o incomodou, pode ser razão para o rancor. Antes de partir, se redimiu em galanteios a uma assessora , como nos bons tempos nos quais foi casado com Simone de Beauvoir.

Veja como terminou a festa: todo mundo nu

Se Lanzmann atacou, valter hugo mãe foi atacado . O português-sensação recebeu propostas de casamentos entre os tantos bilhetinhos que ganhou durante os autógrafos que distribuiu. "Tenho que arrumar uma parceira mais perto de casa, no norte de Portugal", disse ele, desestimulando as possíveis candidatas.

Entre escombros

Marcelo Ferroni, Edney Silvestre e Teixeira Coelho , autores contemporâneos e por isso mesmo mais próximos do grande público, tiveram uma tímida performance. A mesa "Ficções entre escombros" não ficou aos pés da boa prosa brasileira da atualidade. Antonio Tabucchi, que cancelou sua presença como protesto para o caso Battisti , fez falta no que ele sabe fazer tão bem: elevar a temperatura de um debate. Coube então a um veterano baiano mostrar como que se faz. João Ubaldo Ribeiro vestiu a humildade e conquistou os presentes. " Não me considero um homem das letras", disse, para início de conversa.

O conflito entre israelenses e palestinos, sob o viés das HQs, é o foco da obra de Joe Sacco , que não mostrou a que veio. Curto nas palavras, seu debate se resumiu ao esforço da própria plateia, que tentava a todo custo arrancar dele algo mais profundo de suas ideias. Sacco levou a preguiça a Paraty.

Rumo aos dez

Ruas sempe lotadas, cidade mais bem peparada para receber tanta gente. Paraty parece que finalmente entendeu que era necessário investimento se quisesse continuar sendo o coração pulsante do evento. A ciclovia beirando o rio, revitalização da região, as duas tendas - a dos autores e a do telão - próximas uma da outra, staff preparado como solucionar pequenos problemas. Esta foi a mais organizada das edições. A programação off-Flip, para quem não conseguiu ingressos, deu conta do recado.

Ferreira Gullar, que ano passado roubou a cena na programação oficial, dessa vez deu uma palestra à parte, sobre poesia política. O público compareceu em peso, congestionando a rua de um centro cultural . "Popularidade dá nisso", brincou o poeta. Artistas circenses, poetas casuais, escritores independentes e amantes da literatura de cordel dominaram de vez seu espaço nos bastidores, ou melhor, nas ruas da cidade, à beira do rio Perequê-Açu, que corta o centro histórico de Paraty, espelhando as duas tendas principais da Flip.

Dizem que a Flip cresceu tanto que o rio não dá mais conta de espelhar este sucesso retumbante. Para o ano que vem, quando completa uma década , a Flip deve continuar mirando a estes canais paralelos, chamados de off-Flip, que desafogam a desembocadura do "rio principal". E seguir seu rumo como principal festa literária do País.

Beto Lima
Público tem acesso à leitura nas praças da cidade
Relembre as melhores mesas desta edição:

"Pontos de fuga" : Apesar da expectativa em torno da musa da Flip 2011 , a argentina Pola Oloixarac, foi o autor português valter hugo mãe quem roubou a cena na segunda mesa de sexta-feira. Após chorar durante a leitura de um relato de infância e ser aplaudido de pé, o escritor passou quatro horas autografando seus livros, momento em que foi pedido em casamento e recebeu propostas indecentes, como revelou em entrevista exclusiva ao iG .

"O humano além do humano" : Pouco importou se a literatura não foi o tema principal da última mesa de quinta-feira. O encontro entre o neurocientista Miguel Nicolelis e o filósofo Luiz Felipe Pondé levantou questões humanas em duas performances inspiradas. Enquanto Nicolelis, apoiado por recursos audiovisuais, empolgou a plateia ao celebrar os avanços da ciência em relação ao cérebro humano, o cético Pondé apontou para o perigo que a superação do ser humano apresenta: a eugenia.

"Laços da família" : Para tratar da influência que a história pessoal pode ter na literatura, a Flip juntou o autor francês Emmanuel Carrère com o húngaro Peter Esterházy, criando um debate espirituoso sobre a relação entre biografia e obra e entre ficção e não-ficção. Se para Carrère o protagonismo real foi a solução de um dilema, Esterházy apontou o "eu" como algo absolutamente formal.

"Oswald de Andrade: devoração e mobilidade" : Ao lado do professor e músico José Miguel Wisnik, o crítico Antonio Candido abriu a Flip 2011 com um fez "um testemunho de amigo" sobre Oswald de Andrade, homenageado desta edição. Após descrever detalhes da vida e personalidade de Oswald, "um homem que soube usar a arma do riso", foi a vez de Wisnik falar sobre o legado da obra oswaldiana, em especial da antropofagia.

"Lugares escuros" : Encerrando a programação de sábado, o autor norte-americano James Ellroy encantou Paraty com uma palestra repleta de frases de impacto, responsáveis por divertir a plateia da Flip. Entre referência à música clássica ("Nenhum de nós jamais será, porém, tão grande Beethoven") e um elogio a Éder Jofre ("espero que alguém possa dizer a ele que o acho o máximo"), Ellroy arranjou tempo para falar sobre os romances policiais que o aclamaram.

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