Gilberto Freyre, um escritor de várias direções

Para biógrafa, autor "que gostava de dançar na ponta dos pés com a língua portuguesa" era tão bom quanto os grandes da literatura

Júnior Milério, iG São Paulo |

Agência Estado
Gilberto Freyre em 1980: a Flip reconhece o talento de um escritor voltado a diversos assuntos
Além da sociologia, Gilberto Freyre, o grande homenageado da FLIP 2010, exerceu inúmeras atividades durante os seus 87 anos de vida. Mas se considerava, acima de tudo, um escritor. Biógrafa e co-autora de um retrato intelectual de Freyre, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke fala do escritor que se declarava um “homem-orquestra”, por conta dessas múltiplas atividades. A pesquisadora e responsável pela homenagem ao autor falou ao iG de Cambridge, na Inglaterra, na véspera da viagem para o Brasil.


Por que Gilberto Freyre é o homenageado da Flip 2010?

Maria Lúcia Pallares-Burke: É uma inovação da FLIP, que vai contribuir ao mostrar a dimensão literária de um escritor considerado autor de obras difíceis. Freyre se interessava por vários assuntos, e por gostar de andar em várias direções, como ele dizia, preferia ser chamado de escritor. Ele tinha paixão pela literatura, costuma dizer que gostava de dançar na ponta dos pés com a língua portuguesa, e isso faz dele um dos mais importantes brasileiros do século XX ao lado de nomes como Manuel Bandeira e Guimarães Rosa.

No seu livro Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre , a senhora fala do questionamento de alguns colegas estrangeiros em relação ao seu interesse por um pensador brasileiro. Como lidou com essas reações?
O Brasil está sob vários olhares ultimamente, seja sobre assuntos já conhecidos, como o carnaval e o sol, quanto sobre o desenvolvimento econômico do país. Entretanto, o lado cultural e intelectual brasileiro ainda é bastante desconhecido pelo público em geral e também por vários acadêmicos estrangeiros. Isso se dá por ignorância, ou por preconceito fruto da ignorância, pois alguns sociólogos ingleses, que não conheciam Gilberto Freyre, também não tinham interesse em conhecer sua obra. Os questionamentos nos estimularam, ainda que pouco e dentro do nosso âmbito, a mudar a visão de pobreza cultural brasileira. Com a publicação desse livro, buscamos também mostrar que havia e há pensadores e ideias interessantes no Brasil.

Divulgação
A biógrafa de Freyre Maria Lucia Pallares-Burke
O que foi decisivo para escrever sobre Gilberto Freyre e como foi produzir um livro em parceria com seu marido, Peter Burke?
A publicação do livro Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre tem certa função missionária. O objetivo inicial foi falar mais para o público estrangeiro, porém, não há uma obra que trate do Gilberto Freyre dessa forma mais abrangente, apresentando-o como intelectual público, historiador, sociólogo, dentre outros papéis que desempenhou. E escrever em co-autoria com o Peter foi uma experiência nova, pois nunca tínhamos escrito nada juntos. Exceto pelo segundo capítulo, que é uma espécie de resumo do meu livro Gilberto Freyre - Um Vitoriano Dos Trópicos [UNESP, 2005] que trata do período de formação de Freyre, todo o restante foi escrito a quatro mãos. O interesse do Peter pela obra freyriana surgiu antes do meu, pois no início de sua carreira pôde conhecer Gilberto Freyre pessoalmente, quando foi homenageado pela universidade de Sussex, em 1965, com o título de doutor honoris causa. Depois que escrevi o primeiro livro, naturalmente veio a ideia de escrevermos juntos uma obra que tratasse de Gilberto Freyre.

Sair do Brasil foi fundamental na formação de Freyre?
 Existe um ensaio de Chesterton [Gilbert Keith Chesterton], um dos escritores ingleses favoritos de Freyre, que capta exatamente o significado que teve seu afastamento do país para que encontrasse, no exterior, meios de batalhar pelo Brasil. No ensaio, o escritor conta que estava em seu apartamento no bairro de Battersea, em Londres, fazendo as malas para viajar, e um amigo chega e pergunta: “Para onde vai?”, Chesterton responde: “Para Battersea”. E diante do amigo intrigado, ele lhe explica que para chegar onde já estava precisava perambular pelo mundo. “Todo objetivo de viajar”, afirma o autor, "não é por os pés em terras estrangeiras, mas por os pés em nosso próprio país como se fosse uma terra estrangeira...; o único meio de chegar à Inglaterra é ir para longe dela”. Diante disso é inegável que, assim como Chesterton, Freyre também teve de ir para longe para poder colaborar com a definição de uma identidade nacional. As circunstâncias foram propícias para Freyre se tornar o autor de Casa-Grande & Senzala e muito do que sua obra representou para a biografia do Brasil. Como dizia Nietzsche, outro autor favorito de Freyre: “gênios, se é que existem, nada conseguem sem imenso esforço.” Os cursos que fez nos Estados Unidos, por exemplo, foram especialmente favoráveis ao desenvolvimento de sua visão multidisciplinar, já que diferentemente de outros lugares - lá houve a possibilidade de se estudar história ao lado de sociologia, literatura e antropologia.

O próprio Freyre dizia que, caso escrevesse uma autobiografia, daria o título de "Um homem no meio de um século”. Seria apropriado?
Apesar de não ter escrito uma autobiografia oficial, a obra de Gilberto Freyre está repleta de pequenos relatos autobiográficos. Em prefácios, notas e, inesperadamente, em páginas dos seus livros, é possível perceber momentos de sua vida. Como escritor talentoso, à medida que ganhou fama, se empenhou em produzir e controlar, com sua prosa brilhante e convincente, a imagem que gostaria que os leitores e a posteridade tivessem dele. Os trechos que se encontram esparsos pela sua obra fazem parte desse esforço. Assim, caso tivesse escrito abertamente a autobiografia, teria formalizado oficialmente a relação de sua vida ao período histórico em que viveu, ao longo do século XX. Penso ser esse o significado do título que deu ao livro que não escreveu, mas, do qual, de certa forma, deixou muitos fragmentos.

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