Gilberto Freyre muito além do lugar comum

Especialistas apresentam obras menos conhecidas do homenageado da Flip

Estevão Azevedo, especial para o iG Cultura |

Frâncio de Holanda
Participantes da mesa Além da Casa Grande em Paraty
Dez entre dez pessoas que citam a obra do sociólogo Gilberto Freyre, conhecendo-a ou não, vão fazer referência ao livro Casa-grande & senzala . Por sua importância ou por desconhecimento de todos os outros. Como é inevitável, sobre uma ou outra passagem ou ideia mais difundida de um clássico se sustenta toda uma ciência de botequim. Para ajudar o público da Flip interessado na obra do homenageado deste ano a fugir dessa armadilha, foi organizada a mesa “Além da Casa-grande”, com o africanista Alberto Costa e Silva, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke e a socióloga Angela Alonso.

Três grandes acadêmicos falando de outro: risco de seminário, com a densidade e profundidade características – pontos a favor –, e a leitura de apontamentos escritos previamente tentando simular uma fala espontânea – ponto contra. Embora nem de longe tenha sido uma das mesas mais empolgantes do evento, os convidados conseguiram se equilibrar entre esses pontos, e o debate deve ter agradado e desagradado em igual parte o público sempre mais ávido por ficção ou anedotas biográficas.

Como previa o mote do encontro, cada participante falou de um livro menos conhecido do pernambucano, sob mediação da antropóloga e professora da USP Lilia Schwarcz. Costa e Silva discorreu sobre Nordeste , de 1937, que trata dos impactos do avanço da cana pelo litoral nordestino e da importância do negro na formação do brasileiro. Para ele, Freyre “era voltado para o mundo pequenino, para o que tem importância parecendo não ter” e destacou as análises das casas com fachada para o rio, das canoas, do papel do cavalo, do boi e da cabra.

Maria Lúcia Pallares-Burke falou de Ingleses no Brasil , de 1948, em que Freyre, apaixonado pela Inglaterra e sua cultura, compara hábitos, produtos e ideias britânicas e brasileiras, buscando sempre o que há para além dos esteriótipos.

A socióloga Angela Alonso, por sua vez, elegeu Ordem e progresso , de 1957, que encerra a série que contém Casa-grande & Senzala e Sobrados e mucambos , os livros mais conhecidos do sociólogo pernambucano. Da obra, sobre a “desagregação da sociedade patriarcal no Brasil”, Alonso destacou a liberdade narrativa utilizada por Freyre, numa espécie de “sociologia proustiana”, e sua metodologia inovadora, que se serve de fontes insólitas como anúncios de jornal e propagandas de remédio, e é, por vezes, pouco conclusiva.

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