Especialistas apresentam obras menos conhecidas do homenageado da Flip

Participantes da mesa Além da Casa Grande em Paraty
Frâncio de Holanda
Participantes da mesa Além da Casa Grande em Paraty
Dez entre dez pessoas que citam a obra do sociólogo Gilberto Freyre, conhecendo-a ou não, vão fazer referência ao livro Casa-grande & senzala . Por sua importância ou por desconhecimento de todos os outros. Como é inevitável, sobre uma ou outra passagem ou ideia mais difundida de um clássico se sustenta toda uma ciência de botequim. Para ajudar o público da Flip interessado na obra do homenageado deste ano a fugir dessa armadilha, foi organizada a mesa “Além da Casa-grande”, com o africanista Alberto Costa e Silva, a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke e a socióloga Angela Alonso.

Três grandes acadêmicos falando de outro: risco de seminário, com a densidade e profundidade características – pontos a favor –, e a leitura de apontamentos escritos previamente tentando simular uma fala espontânea – ponto contra. Embora nem de longe tenha sido uma das mesas mais empolgantes do evento, os convidados conseguiram se equilibrar entre esses pontos, e o debate deve ter agradado e desagradado em igual parte o público sempre mais ávido por ficção ou anedotas biográficas.

Como previa o mote do encontro, cada participante falou de um livro menos conhecido do pernambucano, sob mediação da antropóloga e professora da USP Lilia Schwarcz. Costa e Silva discorreu sobre Nordeste , de 1937, que trata dos impactos do avanço da cana pelo litoral nordestino e da importância do negro na formação do brasileiro. Para ele, Freyre “era voltado para o mundo pequenino, para o que tem importância parecendo não ter” e destacou as análises das casas com fachada para o rio, das canoas, do papel do cavalo, do boi e da cabra.

Maria Lúcia Pallares-Burke falou de Ingleses no Brasil , de 1948, em que Freyre, apaixonado pela Inglaterra e sua cultura, compara hábitos, produtos e ideias britânicas e brasileiras, buscando sempre o que há para além dos esteriótipos.

A socióloga Angela Alonso, por sua vez, elegeu Ordem e progresso , de 1957, que encerra a série que contém Casa-grande & Senzala e Sobrados e mucambos , os livros mais conhecidos do sociólogo pernambucano. Da obra, sobre a “desagregação da sociedade patriarcal no Brasil”, Alonso destacou a liberdade narrativa utilizada por Freyre, numa espécie de “sociologia proustiana”, e sua metodologia inovadora, que se serve de fontes insólitas como anúncios de jornal e propagandas de remédio, e é, por vezes, pouco conclusiva.

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