Francês e húngaro discutem a influência da realidade na ficção

Emmanuel Carrère e Peter Esterházy contam na Flip de que forma a história pessoal interfere na literatura

Estevão Azevedo, especial para o iG Cultura |

Walter Craveiro/Divulgação
O húngaro Peter Esterházy, na Flip
Quando depois de mais de nove anos de trabalho Peter Esterházy colocou o último ponto final em seu romance "Harmonias Celestes", publicado em 2001 na Europa e inédito no Brasil, sua mulher sugeriu que era hora de descanso. Em vez disso, o húngaro, autor de mais de mais de 30 livros, decidiu ir atrás do que a polícia secreta comunista havia escrito a seu respeito. Deu-se então a descoberta: os documentos traziam a caligrafia inconfundível de seu próprio pai.

A incrível revelação provocou uma vertigem: o romance que acabara de finalizar tratava de sua família aristocrática, que perdera poder e riqueza com o domínio dos comunistas.

Justamente no momento em que usava seu passado como inspiração para sua ficção, o conhecimento sobre sua própria história se esgarçava. Para lidar com a questão, um novo romance foi necessário. Edição corrigida - ainda sem edição brasileira -, foi publicado na Europa em 2005.

Emmanuel Carrère, companheiro de Esterházy nesta sexta-feira (dia 8) na mesa "Laços de família", na Flip , falando sobre sua própria experiência, deu uma pista sobre o movimento que abalou o húngaro: "O risco, quando escrevemos sobre a realidade, é que a realidade sempre responde".

A trajetória do escritor, roteirista e diretor francês, autor de "O Adversário" (2007) e "Outras Vidas que Não a Minha" (2010) é repleta de momentos capazes de inspirar sua máxima.

"Romance Russo" (2008), por exemplo, entrelaça três narrativas: a história de seu avô colaboracionista, que desapareceu em 1945, o caso de um soldado húngaro que, após viver anônimo por mais de 60 anos num vilarejo russo, retorna à sua terra, e o relato de uma relação amorosa real de Carrère.

O debate entre os escritores, como se pode ver, mergulhou em duas das questões mais centrais da literatura: a relação entre biografia e obra e entre ficção e não-ficção. O francês contou ao público da Flip que um momento de paralisia na escrita só foi resolvido quando ele decidiu assumir o papel do protagonista do caso real em que seu livro se baseava.

Esterházy vê a questão a partir de ângulo oposto: "Jamais pensei que a primeira pessoa pudesse significar algo pessoal. O 'eu' para mim é absolutamente formal".

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