Flip 2010 foi salva pela programação do sábado

Dividida entre tema sociologizante e a literatura, festa deste ano conseguiu se equilibrar na corda bamba

Cadão Volpato e Marco Tomazzoni, de Paraty |

Agência Estado
A festa dos livros em Paraty
O sábado salvou a Flip 2010. A cama estava armada para tediosas discussões acadêmicas, em torno da obra do sociólogo Gilberto Freyre, o primeiro escritor torto a ser homenageado nesses oito anos de evento. Torto porque Freyre, um estilista, é antes de tudo um sociólogo polêmico. Divididas entre ressaltar suas qualidades literárias e relevar os deslizes muitas vezes preconceituosos dos seus trabalhos acadêmicos, as mesas em torno de Freyre foram mais acanhadas.

Num ano de eleições, foi esquisito ouvir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso discorrer sobre Casa Grande e Senzala , a obra mestra do sociólogo pernambucano, na abertura da Flip . O charme de FHC não conseguiu esconder a ambiguidade que o livro de Freyre desperta: o resultado foi um elogio contido, uma homenagem tímida, meio envergonhada. Coube a Edson Nery da Fonsega , grande amigo do autor de Sobrados e Mocambos , a única louvação integral do homenageado, com a leitura de memória do longo poema “Bahia de Todos os Santos e Quase Todos os Pecados”. A poesia de Freyre, ironicamente, salvou a pátria.

Mas veio o sábado, e com ele uma sequência de atrações diferentes e inusitadas. Começou com o ferino crítico cultural Terry Eagleton, um marxista que acredita em Deus . Entrevistado por Silio Boccanera, bom apresentador com estranho nome de pirata, ele tratou de desancar os ateistas de plantão. A vítima preferencial foi o biólogo Richard Dawkins, que fez muito sucesso na Flip do ano passado. Para não deixar barato, Eagleton também distribuiu algumas pancadas para o mediador. “Viemos aqui para fazer sensacionalismo ou um debate intelectual?”, começou ele. Boccanera já havia experimentado o fel de Salman Rushdie no dia anterior. Não houve moleza para os mediadores da Flip.

Na sequência, dois escritores de sangue irlandês universalizaram suas aldeias. William Kennedy, o autor de Ironweed , falou sobre a cidade de Albany, a sede viva de sete de seus pungentes romances. Colum McCann discorreu sobre a não tão pequena Nova York, que ele escolheu como lar adotivo, depois de deixar Dublin aos 17 anos. Kennedy reencontrou seu público em Paraty, já que nos Estados Unidos ele já foi quase esquecido, o que é uma tremenda injustiça. McCann apenas começa a se transformar num astro da literatura, catapultado por Deixe o Grande Mundo Girar , um romance fascinante que reflete duas Nova Yorks em uma: aquela que assistiu à travessia do equilibrista Phillipe Petit entre as Torres Gêmeas, em 1974, e a outra, assombrada pela destruição das mesmas no 11 de setembro de 2001.

A tarde do sábado trouxe os substitutos do convidado mais estridente, o músico Lou Reed, que alegou vagos motivos particulares para fugir do sol de Paraty. A poesia foi chamada às pressas: começou com uma leitura nada eletrizante dos poemas de Alguma Poesia , de Carlos Drummond de Andrade, um clássico divisório da literatura brasileira que faz 80 anos. Chacal, Antonio Cícero, Ferreira Gullar e Eucanaã Ferraz apenas deram conta do recado. Mas foi outro octogenário, o maranhense Ferreira Gullar , que ganhou o dia na mesa seguinte, dando uma aula de sabedoria e literatura. Um show em frases e versos do novo livro, Em Alguma Parte Alguma .

Frâncio de Holanda
Robert Crumb: uma decepção
Tudo poderia ter sido fechado de forma excepcional na última conversa da noite, a que uniu os veteranos cartunistas Robert Crumb e Gilbert Shelton , mediados pelo jornalista Sérgio Dávila. Poderia mas não foi. A expectativa era tão grande que a mesa desandou. Shelton não disse coisa com coisa. Crumb olhou para os lados, brincou bastante e foi evasivo. Para quem não conhecia os tipos, permaneceu o mistério do convite para o festival. Para os fãs, um último constrangimento, a entrada-surpresa de Aline Kominsky, a mulher de Crumb, geralmente detestada pelos xiitas do cartum. Ela teve o dom de desvirtuar a conversa. Porém, nem o bate papo errático dos cartunistas conseguiu apagar o brilho do dia. Finalmente a literatura entrava pela porta da frente, deixando a sociologia de lado.

Os cinco destaques da Flip 2010

Terry Eagleton : o crítico britânico é um religioso marxista, e isso fala bastante de sua personalidade. Virulento, polêmico, atacou constantemente Richard Dawkins, queridinho da Flip do ano passado, e defendeu a fé como uma característica inata do homem. Ainda sobraram farpas para o capitalismo, Salman Rushdie e até para o mediador Silio Boccanera. Uma mesa de alto nível.

Isabel Allende : muito confortável no bate-papo com Humberto Werneck, Isabel parecia estar na sala de casa. Daí que a literatura ficou em segundo plano, e o público nem se importou. A escritora falou das cartas que troca com a mãe, do marido, William Gordon, de sexo, plásticas, velhice, num tête-à-tête diante dos microfones. Ninguém reclamou.

Ferreira Gullar : prestes a completar 80 anos, ganhou a plateia fazendo o que sabe. “É tão bom ver que a poesia ainda provoca uma reação como essa”, confessou o poeta, sorrindo, na ovação que recebeu ao ler trechos de seu novo livro, Alguma Parte Alguma . Gullar repassou toda sua carreira, de São Luís do Maranhão a Buenos Aires, de parnasiano a poeta moderno, de pintor a lenda viva da literatura brasileira. Divertiu e emocionou na mesma escala. Inesquecível.

A. B. Yehoshua e Azar Nafisi : ao escalar um israelense e uma iraniana, uma potencial bomba-relógio, a organização da Flip pretendia explorar contrastes. O que se viu, no entanto, foi uma mesa fraternal, de cumplicidade extrema, inclusive na política e direitos humanos. A bela literatura dos dois também não ficou de fora e complementou com perfeição um encontro extremamente feliz.

Salman Rushdie : alvo e ícone da fúria islâmica por muitos anos, Rushdie está mais calmo. Em sua segunda passagem por Paraty, lembrou, sim, do terror que sofreu após publicar Os Versos Satânicos, de suas influências literárias, de religião, mas ele queria mesmo era falar de Luka e o Fogo da Vida , aventura infanto-juvenil inspirada no filho mais novo, com games, fábula e magia. A Flip conseguiu a proeza de fazer o lançamento mundial do livro no Brasil. Louvável.

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