Ferreira Gullar: "Fui demitido de todos os lugares que trabalhei"

Em Paraty, o consagrado poeta fala sobre "terrorismo poético" e política

Valmir Moratelli, enviado especial a Paraty |

Era uma casa lotada. Não tinha nada, nem banco para se sentar, nem escadas para se apoiar, nem chão para se pisar. Tudo porque Ferreira Gullar lotou o espaço destinado a uma palestra sobre seu trabalho com a chamada "poesia política". A Casa Folha tem uma programação Off-Flip, paralela ao evento oficial que é realizado em Paraty.

Se no ano passado Gullar foi ovacionado na programação da Flip , desta vez o poeta retornou à cidade para um "segundo round". Na manhã desta sexta-feira (dia 8), mais de 300 pessoas se espremeram (e se empurraram) para conseguir chegar perto do poeta. Gullar leu trechos de algumas de suas obras mais famosas e explicou detalhes divertidos de sua biografia.

Beto Lima
O poeta Ferreira Gullar em evento off-Flip
Era tanta gente que a rua em frente ficou congestionada de fãs. "Popularidade dá nisso, paciência", brincou ele. Em seguida, disse que estranhou quando recebeu o convite para falar de suas poesias políticas. "Na verdade não quero falar de política, não entendo nada disso. Não sou cientista político, deixo o assunto para os analistas." A seguir, trechos de suas memórias nada ficcionais.

Demissões
"Fui demitido de todos os lugares que trabalhei. Não dava tempo de eu pedir demissão. A primeira vez foi numa rádio. Fui cobrir uma manifestação de trabalhadores e vi um policial matando um sujeito. O diretor da rádio pediu para dar a notícia de que os comunistas tinham matado o trabalhador. Me recusei. Fui para a rua, claro."

Brasília
"A Dilma não sabe o que fazer com o ministério dos Transportes. O cara fez coisa errada e, em vez de demiti-lo, ela esperou que ele se demitisse. Tem que ser assim? Não sei. Mas veja a situação. O ministro cai, e vai junto toda a bancada de deputados que apoiam o governo, cria-se um problema. Não se pode perder o apoio de quarenta e poucos deputados de uma hora para outra. Por isso não aconselho ninguém a fazer política. Tem de ser muito conciliador ter que lidar com quarenta e poucos deputados e seu ministro (risos)."

Terrorismo poético 1
"Quando comecei a fazer poemas concretos, sai espalhando objetos-poemas pela casa. Mas eu morava num lugar muito pequeno, não tinha como entulhar tudo ali dentro. Tinha poema enterrado até no chão da sala (risos). Daí falei com Helio Oiticica, que era tão louco quanto eu, para fazermos um terrorismo poético. Sair espalhando estes poemas na porta das pessoas, de madrugada."

Terrorismo poético 2
"Oiticica achou a ideia muito doida. Sugeri então que fizéssemos uma exposição com tudo aquilo, com dispositivo para destruir tudo no final. Ia resolver a lotação da minha casa. Posso falar que fui o precursor dessa onda de arte contemporânea destruída que se vê por aí hoje em dia (risos)."

Virando marxista
"Como eu já tinha destruído minha linguagem, tinha enterrado meus poemas e até afogado alguns outros em caixas d'água, não tinha mais o que fazer. Virei marxista. Comecei a fazer poesia sobre reforma agrária e favelado. Nada virou filme ou peça, mas panfletos desses que se distribui em feiras. Logo veio o golpe militar."

Pseudônimo sambista
"Fui para Moscou, na Rússia, fugindo da repressão. Voltei, fui preso, aquelas coisas todas... Passei a assinar como José Salgueiro. José porque é meu nome mesmo, então não estaria mentindo tanto. Salgueiro porque é minha escola de samba."

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