Escritores anônimos disputam atenção pelas ruas de Paraty

Atrás de reconhecimento popular e alguns trocados, autores independentes formam uma "off-Flip"

Valmir Moratelli, enviado especial a Paraty |

Muito provavelmente você nunca ouviu falar das obras de Edmilson Santini. É igualmente provável que ainda não tenha lido nenhum verso do poeta Thiago Calle. E nem adianta buscar mais informações nos sites de busca. Eles não estão lá. A diferença de Edmildon e Thiago para os nomes prestigiados do evento de literatura em Paraty é que eles estão em uma turma que usa a FLIP para se fazer conhecida do grande público pela primeira vez. Em vez da tenda dos autores, onde acontecem os disputados debates , eles se apresentam em cada esquina do centro histórico.

Beto Lima
O professor de história Paulo Cavalcante, em Paraty

Para isso, usam diferentes técnicas de abordagem. Edmilson é autor de dezenas de obras da literatura de cordel. Vende cada uma delas por R$ 3. Entre as que mais vende, está “O Encontro de Machado de Assis com Guimarães Rosa”. Graças a uma colorida vestimenta típica de seu Estado, Pernambuco, não só chama a atenção como diz já ter recebido até convite para se apresentar em universidade na Bahia. “Trabalho há treze anos como cordelista, indo a escolas da rede pública e levando o conhecimento do cordel à educação. A Flip é mais uma vitrine para minha profissão”, diz.

"Não aceito cartão "

Já Thiago é motoboy em São Paulo e grafiteiro nas horas vagas. Há duas edições da Flip, ele sai da zona leste da capital paulista para vender seu livro de poesia em Paraty, disputando espaço com nomes consagrados da literatura mundial. Ainda não obteve lucro com a nova "profissão". O dinheiro arrecadado com cada exemplar, ao custo de R$ 20, vai para o custeio de mais uma tiragem de sua coletânea poética "Sobre esquinas tumultuadas de verdade".

“O que me chateia é que as pessoas vêm a um evento de literatura e esnobam quem tenta viver dessa arte. Muitos dizem que não podem comprar porque só usam cartão de crédito. No ano que vem vou trazer uma máquina de cartão, quero ver o que vão usar de desculpa para me ignorar”, promete o insistente poeta.

Beto Lima
O pernambucano Edmilson Santini
Se a rejeição inicial irrita Thiago, o estreante em Flip Roberto de Cássia vê com bom humor a reação do público nas ruas. É na fila da tenda dos autores que o poeta mineiro tenta ganhar alguma atenção, oferecendo seu livreto de poesias por R$ 10.

“Era um sonho estar aqui. Pode escrever que em Minas todo mundo conhece meu poema 'Meretriz', por favor", pede.

Assim como Roberto, o professor Rodrigo Ciríaco não se importa em vender poucos livros. Mas quer ver e ser visto. "O importante é fazer contatos, trocar ideias", diz o autor da coletânea de contos "Te pego lá fora". Mais um do grupo de publicações independentes.

Famosos na rua

Falar em números não é muito o assunto preferido dessa turma que aguenta o frio das noites, as longas caminhadas pelas ruas de pedra e a indiferença de turistas pouco afeitos a um dedo de prosa.Thiago vende cerca de dez livros por dia de evento. Diz que é pouco se comparado ao que se vende na livraria oficial da Flip, onde os best-sellers internacionais são disputados ao fim de cada mesa de debates. "Tento convencer nas ruas que sou famoso, mas que ainda pouca gente me conhece", brinca o paulistano.

O professor de história Paulo Cavalcante já é um "personagem" da Flip. Há sete anos teve a ideia de apresentar seu livro "O martírio dos viventes" no local. A primeira dificuldade: como aparecer entre tantas personalidades literárias? Cavalcante teve que abusar daquilo que parece não faltar a nenhum escritor: a imaginação. Subiu em dois tocos de madeira de cerca de 35cm e ali ficou por exatas dez horas. Vendeu bastante. Desde então, repete a cena, no alto de “seus” 2,10m de altura. Já são 5.500 exemplares vendidos. Um best-seller para padrões brasileiros que chegou em sua sétima edição.

A história de Cavancante gira em torno do que ele mesmo vivenciou no nordeste em 1993, uma seca de 21 meses ininterruptos. "Quem compra o livro com autor de rua tem a vantagem de poder tirar foto, levar autógrafo junto e ainda bater um papo", lista o professor de 51 anos. Seu livro custa R$ 10, uma bagatela que só a Flip dá.

Casal de autores

Beto Lima
O casal Querindina e Macumbira
Querindina e Macumbira são repentistas e cordelistas que usam a Flip como trampolim para a desejada fama. E para quem duvida que eles são autores, a placa no pescoço não deixa questão no ar. "Autora", diz um papelão pendurado. Querindina é socióloga durante o ano. Macumbira é representante comercial. Nos cinco dias de julho, param suas atividades oficiais para vender cordéis na promoção "leve 1 e pague R$ 3, leve dois e pague R$ 5". O casal se recusa a fornecer o nome verdadeiro - ali, eles são também personagens.

"Vem tirar foto comigo, vem! Não precisa comprar o livro. A foto é de graça", intimida Querindina a quem passa por perto. A fotografia com os passantes é feita, e logo conseguem vender dois de seus exemplares. Um bom escritor, ensinam as ruas de Paraty, seduz o leitor já no primeiro contato.

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