Crumb e Shelton: os imperdíveis da Flip

Por que a mesa que reúne dois sexagenários promete ser a mais ácida do evento

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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Os Freak Brothers e Gilbert Shelton (em cima) e uma cena de Gênesis de Crumb ao lado de Robert Crumb
Quando o movimento conhecido como contracultura explodiu nos anos 1960, houve quem pegasse em flores, houve quem pegasse em armas e houve quem pegasse em canetas nanquim. Desse último grupo, dois indivíduos destacaram-se por méritos distintos, mas igualmente importantes.

Em um momento em que super-heróis como Batman e Homem-Aranha faziam a cabeça dos leitores norte-americanos, os cartunistas Robert Crumb e Gilbert Shelton fugiram do modelo vigente e colocaram nos quadrinhos histórias e personagens mais próximos do que viam - e viviam - nas ruas dos grandes centros dos Estados Unidos, criando um estilo de publicação que foi classificado como quadrinho underground.

Hippies sujos, roqueiros viciados e festas que descambavam para sexo, drogas e rock n' roll eram constantes nos trabalhos de ambos, que aproveitavam o humor para alfinetar os "caretas" em atividade do período - fossem eles políticos, militares ou religiosos.

Da dupla, Robert Crumb é sem dúvida o mais badalado. Considerado por muitos o pai dos quadrinhos underground, o cartunista foi um dos fundadores da revista Zap Comics , publicada em São Francisco, um dos principais celeiros de ideias da contracultura, no ano de 1968. Inspirado por ilustrações psicodélicas e cartuns dos anos 1920/1930, Crumb desenvolveu um traço característico e criou uma série de personagens curiosos, como Fritz the Cat e Mr. Natural (ambos publicados no Brasil pela Conrad).

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Robert Crumb como personagem de suas HQs
Com o passar das décadas seu trabalho tornou-se mais sexual e autobiográfico. "A coisa que mais me marcou quando comecei a fazer quadrinhos foi um álbum dele que a L&PM lançou no final dos anos 1980, início dos 1990, chamado Minhas Mulheres , onde Crumb aparecia como personagem. Para mim, foi um divisor", conta o cartunista Allan Sieber, autor das tirinhas Vida de Estagiário e Preto no Branco e responsável pelo prefácio da edição de Kafka de Crumb , da editora Desiderata.

É provável que essa faceta de Crumb, a do cartunista que virou cartum, somada ao seu jeito pouco convencional de agir, tenham colaborado para a criação do mito que o precede. "Acho que o Crumb solidificou o quadrinho underground como um material de respeito, de profundidade e importância artística dentro das HQs. Toda a geração de que ele fez parte, assim como o Gilbert Shelton, ajudou a difundir o quadrinho underground e a formar essa identidade", afirma Rafael Coutinho, autor da graphic novel Cachalote (Companhia das Letras).

No mesmo ano em que Crumb publicava a Zap Comix , Gilbert Shelton lançava os Fabulous Furry Freak Brothers, três amigos hippies cujo principal objetivo em vida é divertir-se utilizando drogas - principalmente maconha. Em suas histórias, o trio de pilantras costuma encrencar-se com traficantes, mulheres e policiais, passando por situações em que a direita conservadora e a elite social são claramente satirizadas.

Talvez a grande diferença entre Crumb e Shelton sejam os cenários em que suas histórias se desenvolvem. Enquanto Shelton retrata o cotidiano errante dos hippies sessentistas de maneira ímpar, Crumb criou um mundo particular para descarregar todas as suas neuras, fetiches e mau-humor - que não é pouco.

"O Crumb é conhecido por ser um nojento notório. Acho que pode ser uma mesa interessante, um pouco perigosa (risos). Mas é sempre um prazer ver um desses nojentos notórios falarem sobre quadrinhos", opina Rafael Coutinho. É exatamente isso que se espera da mesa "A origem do universo", que acontece as 17h15 de sábado (07), em Paraty.

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