Crumb e Shelton decepcionam na Flip

Mesa mais esperada da festa, conversa dos quadrinistas não chegou a empolgar

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Frâncio de Holanda
Robert Crumb "ruge" para os fotógrafos: desconforto em ser o centro das atenções
A fila de espera gigantesca e a aglomeração para entrar na Tenda dos Autores confirmavam o que todo mundo já sabia: a mesa dos quadrinistas Robert Crumb e Gilbert Shelton, na noite deste sábado, era a mais esperada de toda a Flip, tanto pela importância de seus participantes, ícones da cultura underground, quanto pela oportunidade rara de ver Crumb, um recluso notório. O desconforto ficou evidente assim que ele entrou no palco. Mexia as pernas, olhava para trás, protegia os olhos com as mãos para tentar enxergar a plateia lotada. Shelton, por sua vez, parecia distraído, apático, em outro mundo. Esses extremos deram o tom do debate, que, infelizmente, não chegou a empolgar.

Mediador do encontro, o jornalista Sérgio D'ávila perguntou se as mulheres dos dois, de fato, tiveram papel fundamental para a vinda ao Brasil (a esposa de Shelton é também agente literária de Crumb). Como haviam adiantado na coletiva de imprensa , sim, elas tiveram, e Crumb continuava sem compreender por que o interesse das pessoas em vê-lo. “Não entendo por que me colocar nessa situação. Sou um cara tão chato! E esses fotógrafos...”, disse, para depois soltar um rugido. Sim, um rugido. Na sequência, fingiu estar sendo fuzilado pelos flashes. Para alguém tímido, foi bastante performático.

Frâncio de Holanda
Gilbert Shelton: simpatia e apatia
Shelton, célebre criador dos Fabulosos Freak Brothers, tinha um discurso bem mais amistoso. “É um privilégio ganhar uma viagem grátis para um lugar tão lindo como Paraty. Aceito qualquer convite”, agradeceu, nesta que é sua terceira passagem pelo Brasil. “É por isso que eu uso chapéu preto e ele, o branco”, respondeu Crumb. “Ele é o cara legal, e eu o velho idiota rabugento.”

Pouco se falou de quadrinhos. D'ávila tentou que os dois recordassem quando se conheceram. Shelton arriscou que foi em 1969, em Nova York, através de Harvey Kurtzman, fundador da revista Mad . “Não lembro muito daquela época”, contou Crumb, “tomava muitas drogas, LSD, tudo fica misturado”. A psicodelia era regra naqueles tempos. Shelton lembrou uma vez em que entrou na redação de um jornal no East Village nova-iorquino e todo mundo estava “louco de ácido”. No dia seguinte, os textos da edição eram todos incompreensíveis, a não ser seus quadrinhos.

A dupla também falou de Janis Joplin, que foi próxima de ambos. Shelton conheceu-a na universidade, ele estudando história, ela, interpretação. A música folk era uma paixão comum. Na época Janis, uma estrela local no Texas, garantia: “nós, músicos folk, não fazemos rock 'n' roll”. A história conta o resto, e ela passa por Crumb, que fez a capa de Cheap Thrills (1968), segundo álbum da Big Brother and the Holding Company, banda de Janis. A capa, na verdade, era originalmente a contracapa do disco, mas os executivos da gravadora vetaram a arte e inverteram a ordem. “Nunca mais vi o desenho original”, lamentou Crumb, que arrematou: “Se Janis tivesse continuado na música folk, estaria viva.”

Frâncio de Holanda
Crumb é "fuzilado" pelos flashes
O cartunista ainda falou de Gênesis , sua adaptação em quadrinhos para o capítulo bíblico, e se monstrou descontente com os desenhos que fazia no passado, boa parte deles com forte conotação sexual, caso de algumas de seus personagens mais emblemáticos, como Fritz, The Cat e Mr. Natural. “Mal me identifico com o cara que fez aquilo, que lunático! Sou mais acadêmico hoje. É até embaraçoso olhar isso.”

A segunda metade da mesa contou com a participação da mulher de Crumb, a também cartunista Aline Kominsky, e aí a conversa ficou centrada nela. “Obrigada, tenho sido ignorada por 48 anos”, disse, ao entrar no palco. D'ávila perguntou sobre o trabalho em conjunto com o marido, como resolviam impasses criativos, a dinâmica do casal, etc e etc. Se antes o papo já não andava lá muito inspirado, a entrada de Aline – sempre ao lado de Crumb, não importa onde ele vá – não ajudou.

A decepção era evidente. No final, alguém do público perguntou como Crumb desenharia um personagem inspirado no Brasil. “Bem, acho que ela teria uma bunda grande.” Gracioso, e sem nenhuma novidade. Crumb, afinal, estava certo: foi chato mesmo.

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