"Best-sellers estão desprestigiados", lamenta Isabel Allende

Destaque na programação, escritora fala do Chile, preconceito e feminismo

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Frâncio de Holanda
Isabel Allende: a campeã de vendas desta edição da Festa Literária de Paraty
Numa sala apinhada de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas, Isabel Allende se comportou como se estivesse em casa. Em uma conversa com a imprensa na manhã de hoje, a escritora chilena, que mais tarde estará na Tenda dos Autores, mostrou simpatia e total controle da situação – entendia bem o português e pulava de pergunta em pergunta com desenvoltura impressionante, fruto, provavelmente, de seu dia-a-dia como dona de diversos best-sellers: são 56 milhões de cópias, publicadas em 30 idiomas. O assunto, aliás, veio à tona e ela deixou transparecer certo amargor pelo modo como as pessoas encaram o sucesso.

Frâncio de Holanda
Assédio dos jornalistas no fim da coletiva
“Os best-sellers estão muito desprestigiados porque parecem que não tem qualidade”, disse. “É muito difícil saber porque um livro faz sucesso. Às vezes obras maravilhosas não vendem, e outras medíocres viram um fenômeno. É uma questão de oportunidade.” Esse desnível cria preconceito, em especial, segundo ela, na imprensa de seu país.. “Nos Estados Unidos e Europa, não é pecado vender livros. No Chile, é. Se vendo milhões de cópias há mais de 30 anos, alguma qualidade devo ter.”

Indicada por seu novo romance, A Ilha Sob o Mar , ao Prêmio Nacional de Literatura, mais destacada honraria chilena do setor, Isabel lembrou que até hoje apenas três mulheres foram vencedoras. “É um preconceito machista. Há muita polêmica no Chile hoje porque o o público quer eu ganhe, mas um pequeno grupo de críticos acredito que não mereço por ser best-seller.”

A escritora ressaltou que é muito querida em seu país (“as pessoas são muito carinhosas comigo, me abraçam na rua”), mas não se vê por enquanto voltando a morar lá. Allende está há 20 anos morando nos Estados Unidos ao lado do segundo marido, o escritor William Gordon, que também está na Flip. “Meus filhos, netos e cachorro estão na Califórnia. Vou três, quatro vezes ao ano ao Chile e não tenho nenhuma dificuldade de escrever sobre ele. Talvez no fim da vida volte a morar lá, no sul”, afirmou, cética com relação ao trabalho do presidente Sebastián Piñera, recém-eleito.

A autora de Casa dos Espíritos ressaltou que o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende (primo de seu pai) e a obrigou a deixar o Chile é um dos pontos-chave de sua trajetória. “Em 24 horas, vi o poder uma ditadura militar. Não seria escritora hoje se não fosse o golpe. É por isso que as ideias de poder e justiça sempre marcam minha obra. O poder absoluto pode ser encontrado em qualquer lugar, na escravidão, em uma delegacia, até dentro da família.”

Frâncio de Holanda
Allende e o marido, William C. Gordon
Ao falar do sexo em seus romances – “tem que estar sugerido, deixar na imaginação do leitor” –, brincou que não faz nada mais apimentado por causa da mãe, que lê todos os seus livros, e lembrou o hábito que mantém há décadas: as duas trocam cartas quase que diariamente, tanto que Isabel disse ter um closet cheio delas, separadas em caixas por ano. “Quando escrevo algo autobiográfico, como Paula , recorro a essas memórias. Sem elas, nunca teria conseguido.”

Além de criticar o problema da falta de leitura entre os jovens (“nos EUA, se leem em média dois livros ao ano, incluindo a bíblia”), ainda fez referência ao feminismo – desde o início da carreira Allende faz questão de privilegiar heroínas mulheres. Mas as coisas, no entanto, não são mais as mesmas, segundo a escritora. “Ninguém quer mais ser feminista porque não é sexy, mas as causas do feminismo continuam relevantes. Oitenta por cento das mulheres do mundo não vivem como a gente”, disse, e aproveitou para divulgar a fundação com seu nome que mantém em Cuba. “Educação, sanidade e proteção, essas são minhas causas, e não lutar contra os homens, que me encantam.”

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