As memórias da Cuba de Wendy Guerra

De apresentadora infantil a acrobata, autora mistura diários e ficção em sua obra

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Frâncio de Holanda
Wendy Guerra: diários e roubo de "vidas alheias" para compor ficção, já publicada em 11 idiomas
Se pela manhã Wendy Guerra bronzeava as pernas com um short curtíssimo no hotel, no fim da tarde o figurino mudou completamente: botas, meia-calça, sobretudo e um gorro para se proteger do frio de Paraty, que de frio não tem nada. O cansaço depois de uma maratona de entrevistas era notório, mas o magnetismo da escritora cubana permanecia intacto, ainda mais diante das câmeras. A cara e o jeito de menina nem longe entregam a idade, quase 40 anos.

Em Paraty para lançar seu segundo romance, Nunca Fui Primeira-Dama , Wendy é um turbilhão de experiências. De apresentadora infantil a acrobata, casada com um pianista de jazz, maluca por Chico Buarque, pinçou das próprias memórias e do passado de sua mãe material para compor uma mulher fascinada por Célia Sanchez, secretária de Fidel Castro. A mistura de ficção e realidade se tornou sua forma de fazer literatura. “Uso coisas de meus diários, roubo vidas alheias da minha geração, da geração de meus pais. É muito aristotélica a visão do passado, o livro como uma viagem, a busca do pai, de um passado, de um segredo. Faz parte da dramaturgia da literatura.”

Frâncio de Holanda
O corpo é apenas mais um elemento para ajudar a contar a história de alguém
Wendy acabara de almoçar com Isabel Allende, uma das principais estrelas desta Flip. Animada com a autora, não cansou de elogiá-la. “É uma mulher simpática, emotiva... Temos muitos pontos em comum. Seu último livro [ A Ilha Sob o Amar ] é muito forte, fala da escravidão. E eu vivo numa ilha, sobre, ou sob, o mar.”

A ilha é ela própria personagem da obra da autora. Mas o que se vê não são lamúrias, tristeza ou protesto: prevalecem os sentimentos do povo à margem da revolução, sejam eles de decepção, fé ou alegria. “Meus pais foram parte dessa utopia, desse amor, ficaram em Cuba porque eram apaixonados pelo que isso representava. Minha mãe era uma mulher que acreditava na utopia e queria trabalhar por ela.”

Wendy não gosta de política nem de falar sobre ela. É intrigante que uma artista cerceada pelo governo, com correspondência e telefone vigiados, sem ver seus livros publicados no próprio país, se posicione dessa forma. “Os censores não me interessam e não sei viver de outra forma”, despista. Em Nunca Fui Primeira-Dama , entretanto, a política está lá, como pano de fundo, mas ao mesmo tempo não interessa. Como Cuba, Wendy ressalta. “Todos são obrigados a conviver com isso, querendo ou não, porque a política é uma parte do que comem, vêem, vivem, sentem, das pessoas que vão, que ficam. É uma ilha rodeada de água e de política. Lágrimas, risos, música e política. É preciso conviver com isso ou se vai embora, e segue-se pensando em política.”

Apresentadora de um programa para crianças dos 12 aos 36 anos – “eu era uma Xuxa sem Pelé”, brinca –, perdeu o emprego quando ganhou o prestigiado prêmio Bruguera, na Espanha, com seu primeiro romance, Todos Se Van (que em breve será adaptado aos cinemas pelo diretor colombiano Sergio Cabrera). O teor de certa forma explícito de suas lembranças da infância e adolescência, combinado com a necessidade de viajar para divulgar o livro, a afastaram da televisão. A mudança fez com que ela se concentrasse na literatura, ponto de virada para transformar sua vida em material para ficção.

Frâncio de Holanda
Wendy pela manhã, bem mais à vontade
“Eu mesma construí meu trabalho, como uma performer”, disse, se referindo ao modo como expõe sua intimidade para os leitores. “Tantos artistas visuais já transgrediram isso, há mais de 30 anos. Pertenço a uma geração de artistas que foi, já voltou e a literatura continua na pré-história. Nós, escritores, temos que participar disso também.” Intimidade já exposta também em um ensaio nu, para ilustrar uma história que escreveu sobre a rotina de um prostíbulo na capital cubana. “Para mim, arte é uma coisa, sexo é outra. Convivi com muitos artistas e aprendi que o corpo é apenas mais um elemento para ajudar a contar a história de alguém.”

Se ela diz que é uma performer, é porque é mesmo. No final do ano passado, além de declamar poemas (tem três livros de poesia publicados), voou pelo teto da Ópera de Lyon, na França, amarrada em cabos de aço, fazendo acrobacias. “Foi uma performance muito perigosa, balançava muito. Trabalho bastante com esse tipo de arte também em Cuba, muitas loucuras.”

Da faculdade de cinema, que concluiu, tirou apenas a certeza de querer ser uma escritora. Isso graças à ajuda de Gabriel García Márquez, seu professor no mestrado de roteiro. “Graças a ele aprendi que o que queria era escrever. Descobriu uma autora, não uma cineasta.” Foi na universidade que cultivou as amizades e o trânsito livre que mantém no meio cultural de Havana. É muito amiga de Pedro Juan Gutiérrez, um dos expoentes da literatura cubana contemporânea.

“Pedro Juan vive como escreve. É um dos homens mais devoradores de mulheres que já conheci e um dos poucos boêmios da época dos meus pais que está vivo. Ama a vida e a marginalidade. Ele é totalmente de verdade.”

Cronista do jornal espanhol El Mundo , tira dali seu sustento (“é minha bolsa de estudos, um dinheiro estável”) e aproveita para estudar a linguagem, deixar, como diz, o texto nu. “Só me impus a condição de não me queixar, isso cansa o leitor.” Além de trabalhar em um novo romance, que enfoca o racismo, lança em setembro na França o Diário Apócrifo de Anaïs , baseado na vida da escritora Anaïs Nin. Com tantas viagens, Wendy descobriu um mundo bem maior, e apelativo, do que aquele descrito nos longos discursos de Fidel. “Minha relação com o capitalismo é muito recente, estou aprendendo a viver com isso. Quando vou a uma loja, pareço uma criança de 4 anos”, confessou, produzida da cabeça aos pés.

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