Antonio Candido abre a Flip 2011

Ao lado de José Miguel Wisnik, o ilustre crítico literário relembrou a personalidade marcante de Oswald de Andrade

Estevão Azevedo, especial para o iG São Paulo |

Quando um senhor de cabelos muito brancos surgiu no palco da Flip 2011 e a fala inaugural do curador Manuel da Costa Pinto foi interrompida por efusivos e longos aplausos, começou efetivamente a festa literária: eram as boas-vindas do público ao crítico e ensaísta Antonio Candido, que veio à Paraty falar do homenageado Oswald Andrade.

Ao lado do professor de literatura e músico José Miguel Wisnik, Candido apresentou a figura controversa do escritor modernista a uma tenda dos autores praticamente lotada.

AE
O crítico literário Antonio Candido fala sobre Oswald de Andrade na Conferência de Abertura da Flip 2011
Mais do que avaliar a obra ou o legado do homenageado, Candido fez "um testemunho de amigo" e deu amostras dessa relação que começou em conflito: em 1943, ele escreve artigo severo sobre a obra de Oswald, que responde com virulência. Num encontro posterior, Oswald lhe dirige as seguintes palavras: "eu o ataquei com violência e você reagiu com serenidade, portanto daqui para a frente podemos ser amigos".

Na avaliação de Candido, o "jorro de humor, ironia, sarcasmo e a síntese verbal" que caracterizaram o jeito de Oswald atrapalharam a percepção de sua obra, pois atraíam toda a atenção para sua personalidade. Além disso, não ajudava o fato de essa incrível “presença de espírito vocabular” costumar ser direcionada aos que o criticavam: "Oswald era de um sarcasmo brilhante que esmagava a pessoa".

A mesma facilidade que tinha para malhar, Oswald tinha para reconciliar-se. O relato de Candido sobre a relação de Oswald com Mario de Andrade foi um dos pontos altos de sua fala. Após a briga terrível entre os dois, conta Candido, Mário nunca aceitou a reaproximação, o que fez Oswald sofrer muito. Ainda assim, pouco antes de morrer, Oswald pediu a Candido que guardasse o seguinte testemunho: "considero Mario de Andrade a maior figura do modernismo brasileiro".

Candido encerrou afirmando que umas das grandes realizações de Oswald foi mostrar que a alta literatura não é incompatível com a alegria. "Oswald foi um homem que soube usar a arma do riso."

Depois de outra grande salva de palmas para Candido, coube ao segundo convidado da noite a difícil tarefa de tentar manter a atenção da plateia. Para isso, Wisnik destacou o legado da obra oswaldiana. Relembrou a década de 1960 e a importância do conceito de antropofagia para os tropicalistas, o cinema de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade e a montagem de "O rei da vela", de Oswald, por José Celso Martinez Corrêa.

A antropofagia, explicou Wisnik, não é a devoração pela devoração. É o "critério seletivo de leitura do que é a cultura do outro, fazendo que a cultura do outro e a nossa se desloquem". A obra de Oswald, ele explicou, é algumas vezes deixada em segundo plano porque trata-se de um escritor que desloca o lugar da instituição literária e exige novas perspectivas de leitura.

O público que devorou a mesa de abertura da Flip 2011, com sabor especial por causa da presença do mais ilustre crítico literário brasileiro vivo, certamente vai ler Oswald com um novo olhar.

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