A vida privada de Isabel Allende

Autora chilena mostrou muito bom humor e conquistou plateia da Flip

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Frâncio de Holanda
A chilena Isabel Allende sorri na Tenda dos Autores: público se divertiu em Paraty
Isabel Allende parece estar sempre muito à vontade. Com a mesma disposição que exibiu no encontro com a imprensa pela manhã , a autora chilena respondeu prontamente a todas às perguntas do mediador Humberto Werneck no fim da tarde de hoje, na mesa “Veias Abertas”, uma das mais esperadas da Flip. O clima era de bate-papo, tanto que boa parte da conversa pendeu para a vida privada da escritora, por sua família (inclusive o primo de seu pai, o ex-presidente chileno Salvador Allende) e em especial a paixão por seu marido, William C. Gordon, antes o “último heterossexual solteiro da Califórnia”. Histórias e detalhes saborosos fizeram a alegria do público, que aplaudiu de pé, e a literatura, bem, também apareceu aqui e ali.

Allende contou que sempre tem medo antes de começar a escrever um novo livro, tarefa com data marcada: religiosamente o 08 de janeiro de cada ano, desde 1981. Ela se retira, então, para uma casa menor ao lado da sua, acende uma vela e reflete, às vezes por um bom tempo. “É uma cerimônia cada vez mais longa, para adiar o início, quando tenho que resgatar a história da escuridão.” História, segundo ela, ditada pelos próprios personagens, em um processo “quase mágico”. “Sinto que os personagens existem e meu dever é ouvi-los, sentar na frente do computador durante horas e deixá-los se manifestar.”

A agonia se estende pelas três primeiras semanas, quando diz não “saber nada”, tudo é desorganizado. “Todos meus livros são ruins no início, depois preciso corrigi-los”, garantiu. A correção também passa por um revisor na Espanha, já que a escritora afirma conviver com “um americano que acha que fala espanhol”. No meio dessas coisas ruins, ela se arrepende de ter escrito alguma coisa? Como jornalista, responde, vários textos, mas principalmente de La Gorda de Porcelana , publicado poucos anos depois de A Casa dos Espíritos por culpa de um editor ganancioso. Allende admitiu ter comprado quase todas as edições e hoje o livro é “item de colecionador”.

Frâncio de Holanda
A escritora caminha pelo centro histórico
Mesmo que confesse ter sido uma “péssima jornalista”, Allende sustentou que a profissão lhe ensinou a usar as palavras de modo eficiente, a pesquisar, trabalhar sobre pressão e ter o leitor sempre em mente. “Os escritores às vezes esquecem que têm leitores e escrevem para amigos, críticos. Já me perguntaram por que escrevo livros populares, e a questão é que não quero cansar o leitor. Quero agarrá-lo e fazer com que fique comigo até a última página, esse é meu dever.”

Quanto à crítica, ela continua reclamando e no debate deu até uma alfinetada feminista, uma de suas características mais conhecidas. “Às vezes, por ser mulher, recebo uma crítica especialmente dura. Alguém acusou O Amor nos Tempos do Cólera , de Gabriel García Márquez, de sentimental? Não. Se fosse uma autora, seria a primeira coisa que falariam.”

Aos 68 anos recém-completados, com um livro novo nas prateleiras, A Ilha Sob o Mar , e outro quase pronto – situado na época atual, ao contrário de seus frequentes romances históricos –, Isabel afirmou que a maturidade tem “coisas boas, poucas, e muitos problemas”, corrigidos eventualmente com a ajuda de pessoas como o cirurgião plástico Ivo Pitanguy (“não sabia que ele ainda estava vivo”, disse). A velhice, aparentemente, ela encara com bom humor. “Espero ter cabelos. E dentes, mesmo que postiços. Devo ser uma velhinha meio louca e seguir escrevendo, desapegada do mundo.”

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