Laerte: “Não estou na menopausa, porque não tenho ovários”

Durante a Flip, cartunista conversa com o iG sobre a extinção de gêneros e a confusão diária que seu estilo cross-dressing provoca na sua vida

Valmir Moratelli enviado a Paraty (RJ) | - Atualizada às

Valmir Moratelli
Laerte, cartunista

Horas antes de subir ao palco da Tenda dos Autores , na Flip , o cartunista Laerte recebeu a reportagem do iG no hotel em que está hospedado em Paraty. Ao pedir para que ligasse para o quarto do “senhor Laerte”, se ouviu do recepcionista uma curiosa resposta: “Não há nenhum senhor Laerte hospedado aqui. Só uma senhora”. A confusão de gêneros é uma rotina na vida de Laerte, desde que resolveu aderir aos vestidos e saltos altos, sempre de maquiagem bem feita.

Logo ele surge na recepção. Maquiado, de unhas pintadas, vestido longo. O rapaz que limpa a piscina observa melhor e comenta baixo: "É um homem?... É um homem. Parece uma senhora". O papo transcorre dos preconceitos cotidianos ao seu estilo cross-dressing, termo que se refere a pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto. Laerte é, há alguns anos, o mais famoso representante dessa tendência comportamental no País. E sabe o peso que carrega por isso. “Não me incomoda que as pessoas me procurem mais pelo que eu sou do que pelo que minhas obras possam gerar de discussão. Me espanta que este tipo de debate ainda seja uma novidade”, diz.

O cartunista revelou ainda que está passando por uma bateria de exames para avaliar se há riscos de desenvolver um mal que aflige os homens, o câncer de próstata. O papo, a seguir.

Valmir Moratelli
Laerte

iG: Você se vê incomodado com o que se chama de “onda politicamente correta”?
LAERTE: Eu contesto muito que esta seja a época do politicamente correto. Pode ser do incorreto também. Gays, judeus, mulheres, negros... Qual é o problema dessas populações serem rotuladas de forma, digamos, menos convencional? Depende muito do modo como isso é anunciado. Acabei de encontrar uma amiga lésbica. E entre elas, é normal que se tratem como ‘sapatas’. É uma forma afetuosa. Mas dito de fora, por um colunista de direita, a carga de agressividade não pode ser ignorada. É tudo uma questão de contexto.

iG: Quem trabalha com o humor se sente perseguido...
LAERTE: É um momento em que humoristas tentam se colocar a salvo das críticas. Qualquer tentativa de crítica, eles colocam como vítimas da tentativa de censura. Sou absolutamente contra a censura. Mas o debate precisa ser mais profundo. O que é dito, inclusive por humoristas, não está livre de críticas.

iG: Quem deve colocar este limite?
LAERTE: O limite quem coloca é a sociedade. Monteiro Lobato era racista, reacionário para a época. Ele considerada negro inferior, deixou isso claro em várias cartas. É preciso que se debata na sociedade a sua importância. Ele escreveu livros ótimos. Tudo tem que ser relativizado.

iG: Sofre algum preconceito por se vestir como mulher?

LAERTE: A própria expressão ‘se vestir como mulher’ é estranha para mim. Eu me sinto mulher. Mulher é uma questão cultural. Existe a fêmea, cientificamente tem como se defini-la. Mas a mulher, o feminino, é algo construído socialmente. Caminhamos para a extinção dos gêneros. É um modelo de raciocínio interessante para se pensar. Considerar uma sociedade onde classes sociais não existam e, por que não, gêneros também sejam eliminados.

iG: Ao chegar aqui no hotel, o recepcionista me disse que não sabia que você é um “senhor”.

LAERTE: Estava fazendo um tratamento no Hospital de Clínicas, em São Paulo. A enfermeira, ao fazer o cadastro na minha frente, disse que colocaria sexo masculino. Entendi perfeitamente. O padrão para tratamentos médicos é esse. Gosto de ser tratado como senhora, mas não vejo problema algum em ser chamado de senhor. Na minha cabeça é muito difícil de responder isso. Porque está tudo misturado, homem e mulher.

Leia também:  Risos fartos marcam debate dos cartunistas Angeli e Laerte na Flip

iG: A extinção de gêneros não causaria uma confusão danada?

LAERTE: Quanto de feminino eu sou? Comparando com minha mãe, por exemplo... Ela não se pinta, não usa salto. Mas ela é feminina. O que é ser feminino? Estes termos estão empregados de forma muito leviana. Assim como um homem com gestos mais afetados não deve ser chamado de homem? De certa maneira todos nós afetamos alguma coisa em alguma fase da vida ( risos ).

iG: Em algum momento do seu dia você ainda se vê como homem?

LAERTE : Minha cabeça virou um pudim só. Nem minha namorada mora comigo. Ela mora na casa dela. É uma proximidade afetiva. Liguei pra minha mãe falando que ia sair na imprensa que eu estava me vestindo como mulher. E ela: ‘verdade? Ah, tenho uma saias aqui que não uso, e talvez sirvam para você’ ( risos ). Não tem um momento masculino... Deixa eu pensar... Eu mijo de pé. Mas faço isso por causa da minha próstata, que está inchada.

iG: Fez exame?

LAERTE: Ainda não sei o que é. Está inchado, fiz o exame. Ainda não saiu o resultado da biópsia. Mas vamos aguardar.

Mais: Cobertura completa da Flip 2012

iG: Sente sintomas psicológicos da menopausa?

LAERTE: ( risos ) Sintomas? Não, não estou na menopausa porque não tenho ovários! Já chega a andropausa na minha vida.

iG: E o salto alto? Deve ser uma tarefa difícil para andar em Paraty...

LAERTE : Usei salto alto ontem. Andei com ele, sim. Mas é que o salto é meio larguinho, não foi nada traumático ( risos ).

Valmir Moratelli
Laerte

    Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG