Ian McEwan e Jennifer Egan falam na Flip sobre como manipulam leitores

Na mesa mais esperada de 2012, dois dos maiores romancistas da atualidade conversam em Paraty a respeito da criação de personagens, música, "inveja do pênis" e o prêmio Nobel

Valmir Moratelli - enviado a Paraty (RJ) | - Atualizada às

As filas intermináveis na frente da tenda dos autores, debaixo de forte sol, uma hora antes do início do debate já indicava: estava para começar a mais aguardada mesa da Flip 2012 , “Pelos olhos do outro”, entre Ian McEwan e Jennifer Egan.

O autor de “Serena” e a autora de “A visita cruel do tempo” e “O torreão” começaram falando sobre a empatia que conseguem estabelecer entre seus personagens e os leitores, a ponto de serem considerados dois dos maiores escritores em língua inglesa da atualidade.

“Entro como sonâmbulo no processo da escrita. Pinto o rosto dos personagens com palavras, traço a tração, como se fosse pintura. É mesmo como se o personagem é que escolhesse o autor”, disse Ian.

“Preciso dessa empatia com o personagem, até porque não me dou bem escrevendo sobre pessoas conhecidas. Sinto o personagem consistente quanto mais real e afastado de mim ele for”, completou Jennifer.

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Sobre a força da escrita a ponto de se sentirem manipulando os leitores, ambos os autores gostaram dessa comparação posposta pelo mediador Arthur Dapievi. “Há um prazer de manipular o leitor, sim. Diria até que é o meu principal prazer na vida. Há uma relação entre manipular o leitor e fazer cosquinha em trutas para deixá-las em transe antes da pesca. Ser chamado de manipulador é ser acusado de ser romancista”, definiu Ian McEwan, arrancando risadas do público.

“Se você escreve dizendo que aquilo é no século 19, já está havendo manipulação. Mas são coisas positivas, você induz para a surpresa. E eu acho surpresas maravilhosas”, disse Jennifer Egan.

Ian McEwan falou ainda da comparação que faz do trabalho de escritor com o de compositores. “Todo romancista tem inveja de compositor. É como a inveja do pênis. Já tive paixão por Bach, mas não conseguia competir com isso. Talvez por isso o evoque com sua música para dentro dos romances”, afirmou ele, sempre sorrindo.

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Apesar de acumularem prestígio, afagos da crítica literária e habitarem as primeiras posições em listas dos mais vendidos em diversos países, Ian McEwan e Jennifer Egan não ganharam ainda um prêmio Nobel de literatura. Eles riem do fato com irônico desdém.

“Melhor lembrar de James Joyce e Kafka, que nunca ganharam também. De certa maneira, estamos então em boa companhia”, brincou Ian McEwan, que faz o lançamento mundial de “Serena” na Flip. O romance sai em agosto na Inglaterra e, em seguida, nos demais países.

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