Adonis diz que sociedade também precisa mudar após Primavera Árabe

Para poeta sírio, revoltas no Oriente Médio não significarão nada sem separação entre religião e política e mais direitos para mulheres

Augusto Gomes enviado a Paraty (RJ) | - Atualizada às

Nascido na Síria e radicado na França desde os anos 1980, Adonis é um dos principais poetas da atualidade e, já há alguns anos, presença constante em listas de cotados ao Nobel de Literatura.

Mas o fato de ser sírio fez com que sua palestra na Flip fosse quase totalmente dedicada à política. Afinal, seu país passa por uma séria turbulência política, com revolucionários sendo violentamente reprimidos pelo ditador Bashar al-Assad.

Adonis mostrou-se pessimista em relação à revolta na Síria e no mundo árabe em geral. "O problema é que as pessoas que começaram a Primavera Árabe foram afastadas. Os fundamentalistas tomaram seu lugar", disse.

"Se a sociedade não mudar, será apenas uma troca de regime", explicou. "Se não houver uma separação radical entre política e religião e se a mulher continuar prisioneira da lei islâmica, a mudança não significa nada para mim."

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Seu companheiro de mesa, o libanês radicado na França Amin Maalouf, foi um pouco mais otimista. "A Primavera Árabe é um movimento legítimo. Há aspectos muito positivos, mas que infelizmente duraram pouco."

Ele lamentou, por exemplo, o fato da revolta ter começado de forma pacífica, mas depois de poucos meses ter ficado violenta. Também elogiou o fato de, pelo menos no início, ter sido um movimento com participação grande de jovens e mulheres.

Outra questão em que Maalouf mostrou-se mais otimista que Adonis foi o presidente americano, Barack Obama. Para Adonis, "Obama é simplesmente uma máscara negra num rosto branco". Já Maalouf viu "ideias louváveis" no presidente.

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Além de falar sobre política, os dois conversaram sobre a cultura no Oriente Médio. Neste ponto, não houve desacordo: ambos criticaram a separação cultural entre Oriente e Ocidente.

"Não há Ocidente e Oriente no mundo da criação. São noções políticas", afirmou Adonis, sob aplausos da plateia. "Eu não faço distinção entre as fontes orientais e ocidentais na minha inspiração", completou Maalouf.

Maalouf então lembrou de sua infância em Beirute, quando cristãos, muçulmanos e judeus coexistiam pacificamente. "Se não conseguirmos que essas pessoas convivam num mesmo país, como conseguiremos fazer com que o mundo conviva pacificamente?"

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