"Um bom romancista cria problemas onde ninguém vê", diz Javier Cercas

Escritor espanhol discutiu a relação entre ficção e história com o colombiano Juan Gabriel Vásquez na Flip

Augusto Gomes enviado a Paraty |

"Um bom romancista cria problemas onde ninguém vê." A frase rendeu aplausos do público logo que foi dita pelo escritor espanhol Javier Cercas durante debate com o colombiano Juan Gabriel Vásquez na Tenda dos Autores da Flip . O tema da conversa, Ficção e História, não poderia ser mais adequado para os dois.

A obra mais recente de Cercas, "Anatomia de um Instante", é um romance em que todos os fatos são reais. Ou, nas palavras do autor, é "um livro onde a ficção não é ficção". O tema é a tentativa de golpe militar na Espanha, em fevereiro de 1981.

Já o novo livro de Vásquez, "A História Secreta de Costaguana", trata de uma história real - a separação do Panamá da Colômbia -, mas toma liberdades com os fatos históricos. Um dos personagens da história é o escritor Joseph Conrad, que teria usado a separação como inspiração para o livro "Nostromo".

Vásquez justificou as pequenas traições à realidade dizendo que seu livro "não conta as coisas como aconteceram, mas como poderiam ter acontecido". "É um romance, logo não reproduz o mundo. Ele reinventa a realidade."

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Isso, segundo Cercas, não significa que a obra não seja verdadeira. "Todos nós, historiadores e romancistas, buscamos a verdade. Mas verdades distintas. É como disse Aristóteles: a verdade histórica é factual, concreta. Já a verdade da literatura é abstrata, moral".

"Alguns livros buscam conciliar essas duas verdades, mas isso é raro. É uma contradição em termos. Algo como um casamento feliz", completou, arrancando risos - e mais alguns aplausos - da plateia.

Cercas contou que usa a história de diferentes maneiras, de acordo com as necessidades de cada livro. Em "Soldados de Salamina" (2001), seu maior sucesso, ele usou um fato real - um soldado franquista poupado da morte por um republicano durante a Guerra Civil Espanhola - como ponto de partida.

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"Essa cena me fascinou. Foi um acontecimento minúsculo, que nem aparecia nos livros", explica. "O que eu fiz foi, por meio da ficção, iluminar as sombras dessa história. Basicamente, eu inventei".

Já em "Anatomia de um Instante" foi diferente. De novo, uma cena específica - um deputado que permaneceu sentado quando militares armados invadiram o congresso espanhol e mandaram que todos se jogassem no chão - foi o ponto de partida.

Mas, como este era um episódio relativamente recente e bem documentado, ele decidiu ater-se aos fatos. Mas ainda assim se preocupando em descobrir coisas que o leitor - e o próprio autor - não sabia.

Ou, nas palavras de Vásquez - mas citando William Faulkner: "A função do romancista é acender um fósforo num campo escuro. Sim, ele não serve para iluminar o campo. Mas serve para revelar a escuridão."

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