04/07 - 18:30 - Marco Tomazzoni, enviado a Paraty
PARATY – O jornalista norte-americano Jon Lee Anderson sabe como chamar a atenção. Com anos de experiência na cobertura de guerras e como correspondente internacional na América Latina, o autor da celebrada biografia de Che Guevara tem bastante claros quais são os problemas da parte de baixo do continente e, com conhecimento de causa, jogou a verdade na cara da plateia que o assistiu na Casa de Cultura de Paraty, neste sábado (04): o crime está batendo na sua porta.
| Marco Tomazzoni |
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"É preciso perceber que a criminalização chegou ao mainstream", diz Lee Anderson |
Anderson lembrou quem, há 30 anos, se você fosse jovem e pobre na América Latina, estaria descontente com o governo, mas poderia se juntar às guerrilhas e lutar pela utopia de um mundo melhor. Atualmente, a população que vive às margens da sociedade, sem ter para onde ir, está marginalizada. “A criminalização hoje é uma característica da América Latina e não era nas décadas passadas. As pessoas vivem na ilusão do Estado, mas ele não existe. O problema é tema de filmes, novelas, músicas, mas é preciso olhar para isso e perceber que a criminalização chegou ao mainstream”, alertou.
Desde a primeira vez que veio ao Brasil, há 13 anos, o jornalista está familiarizado com a realidade local. Já naquela ocasião, pediu para conhecer uma favela do Rio de Janeiro e, embora protegido por guias que tinham a permissão de levá-lo até lá, conseguiu ver as marcas da violência carioca, impressa em grandes manchas vermelhas no cimento das escadarias nos morros.
Anderson há tempos vem juntando material para produzir algo sobre o País e já sabe o bastante para apontar que o crime no Brasil usa a linguagem das grandes corporações para sobreviver e que os policiais são praticamente iguais aos criminosos – falam do mesmo jeito, usam as mesmas tatuagens e também as mesmas técnicas para matar. A situação é tão grave que ele prevê que vá acontecer um fenômeno semelhante à Colômbia: o estabelecimento de grupos paramilitares, armados até os dentes, para controlar as favelas no lugar do estado e que, no caso colombiano, se davam ao direito de caçar pessoas nas ruas até com motosserras.
“É como dizem na Nicarágua: se não fazem as coisas boas, façam as más, as duas funcionam”, lembrou o jornalista. A grande questão, para ele, é tomar consciência do problema e buscar resolvê-lo, mas, por enquanto, não há nada no horizonte que aponte para uma solução a curto prazo. “Não vejo ninguém com propostas novas nem falado do que isso é: uma emergência.”
Além de lembrar um incidente que teve com a revista Veja – que publicou uma reportagem sobre Guevara com declarações suas, apesar de não consultá-lo, o que classificou como “chocante” –, Anderson mostrou seu pessimismo sobre o futuro no Iraque e um certo temor pela sucessão do governo em Cuba após a morte de Fidel Castro (embora alguns cubanos já acreditem que ele tenha virado um “zumbi” ou tomado um “elixir da vida” mandado pelos soviéticos).
O ponto positivo, na sua opinião, é a presença de Barack Obama na Casa Branca, o que pode facilitar a transição para um regime mais aberto. “Ao menos Obama é inteligente, ao contrário de seu antecessor. Se ele resolver matá-lo, não vai ser em um banho de sangue, mas com charme e sofisticação”, brincou.
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