03/07 - 13:56 - Marco Tomazzoni, enviado a Paraty
PARATY – A Flip vai abrigar na manhã deste sábado (04) um encontro inédito no Brasil e no mundo. Pela primeira vez, a conceituada artista plástica francesa Sophie Calle e seu ex-namorado, o escritor Grégoire Bouillier, vão se encontrar em público, na mesa “Entre Quatro Paredes”, para debater o trabalho de ambos, inspirado no término da relação. Ele transformou a experiência em livro e ela, numa exposição que chega a São Paulo na semana que vem. A expectativa de que o casal “lave roupa suja” no palco da Tenda dos Autores é inegável, mas é bem pouco provável que isso aconteça.
| Divulgação/Edu Girão |
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Sophie Calle na coletiva |
“Na vida real, me sinto muito frágil com meus sentimentos. Meus projetos são uma maneira de lidar com isso e fabricar relações unilaterais, seguras, que não me oferecem risco”, confessou Calle, tímida, na coletiva de imprensa realizada hoje. “Assim que estou sentindo alguma emoção, fico me perguntando o que vou fazer com isso. Como disse meu amigo Jean Baudrillard, este gesto me protege do sofrimento.”
Bouillier tem uma relação distinta com suas experiências. O autor – que já foi processado pelos pais na época de lançamento de seu livro de estreia, o autobiográfico “Relatório Sobre Mim” (“Rapport Sur Moi”, 2002) – garantiu em entrevista que não gosta da separação entre ficção e realidade. “Geralmente, a realidade ultrapassa a ficção, e é essa ultrapassagem que me interessa. O trabalho do escritor é justamente juntar a ficção com a realidade, manipulá-las.”
Recém publicado no Brasil, “O Convidado Surpresa” mostra como Bouillier e Calle se conheceram no aniversário da artista, que costuma comemorar em uma festa na qual convida o mesmo número de pessoas dos anos que completa, mais um, que era o escritor. O fato de usar sua própria vida como tema não é um ato egocêntrico, como ele procurou explicar. “A literatura serve justamente para mergulhar na interioridade, coisa que o cinema, por exemplo, não consegue captar. Ninguém acreditava que isso realmente tinha acontecido, então meu desafio foi colocar palavras nesse evento. Não acho que se possa recriminar o escritor por colocar-se na obra. Essa lógica de nossa época, da cultura de celebridades, está sendo usada para criticar a ficção, e devia ser o contrário.”
| Divulgação/Edu Girão |
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Grégoire Bouillier em rua de Paraty |
Sobre o encontro em Paraty, Bouillier se limitou a dizer que foi convidado por Calle e não viu motivo para não aceitar. Ela, por sua vez, afastou qualquer especulação de que a conversa seja uma manobra marqueteira para promover o livro do ex-namorado. “Marketing não foi o mote dessa ideia. Essa história merece ser contada e esse encontro tem sentido pela exposição estar estreando em São Paulo. Não há tensão nenhuma nisso, é só uma troca, e estou feliz.”
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