Renato Ciasca: “Nós nos envolvemos com as causas no Pará”

Diretores de “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios” falam dos conflitos paraenses e da escolha de Camila Pitanga

Mariane Morisawa, especial para o iG |

Beto Brant e Renato Ciasca são amigos e parceiros de cinema há 25 anos. Em “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, adaptam mais uma vez uma obra de Marçal Aquino, sobre a paixão de Cauby (Gustavo Machado) e Lavínia ( Camila Pitanga ) numa região conflituosa no Pará.

Os diretores falaram ao iG sobre o projeto:

iG: O filme tem um pano de fundo político e social muito importante. Como se deram essas inserções?
RENATO:
Eu, Beto e Marçal fizemos uma viagem para desenvolver o primeiro tratamento do roteiro. Quando chegamos ao Pará, ficamos impressionados com a questão do desmatamento.
BETO : Originalmente, o livro falava de uma região conflituosa de garimpo. E hoje, naquela parte do Brasil, esse conflito está minimizado, há uma divisão muito clara entre pequenos e grandes mineradores. O que existia era a luta pela demarcação de terras indígenas e o desmatamento. É um movimento vivo, está acontecendo lá neste momento.
RENATO : O Movimento de Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns fez um protesto contra as madeireiras, obstruindo o caminho das balsas. Algumas pessoas, sem ordem das lideranças, atearam fogo à madeira. Estávamos lá no aniversário de um ano do movimento.
BETO : Em vez de recriarmos o protesto e queimarmos madeira para uma cena, o que seria caro, resolvemos financiar a assembleia dos participantes do movimento.

iG: O pano de fundo ganhou mais importância, então?
RENATO:
Acho que a gente se envolveu.
BETO : Acredito que esses temas transbordam na tela. Mas é lógico que, como no livro, o mais importante era esse drama humano do Cauby, da Lavínia e do Ernani.

iG: Por que escolheram a Camila Pitanga para fazer a Lavínia?
BETO:
A Camila estava no auge na televisão, com a personagem Bebel, da novela “Paraíso Tropical”. Ela é uma mulher bonita e tinha a cara de cabocla que é a cara do Pará. Chamamos a Camila para uma conversa. Ela é muito querida, tem carisma, é uma unanimidade, é engajada. Achamos que o repertório de sua vivência ia agregar na construção do personagem. Sua mãe e sua tia tiveram problemas psíquicos. Tanto que a proposta de interpretação da parte final veio toda dela.
RENATO : Camila se sentiu estimulada e provocada pelo material. Ela tinha acabado de fazer uma prostituta na televisão, mas Lavínia era totalmente diferente.

iG: Como foi filmar com ela em Santarém?
RENATO:
Ela chegou antes à cidade, é muito dada e alegre, mas sabe se preservar.
BETO : Ela se reuniu com os vizinhos da casa em que filmamos boa parte das cenas, explicou que precisava de concentração e que daria uma festa no final das filmagens. E fez isso. Depois do término, falou com todos, abraçou, beijou. Ela chama a responsabilidade para si.

iG: Como se dá a divisão do trabalho entre vocês?
RENATO:
A gente se conhece artisticamente e pessoalmente há 25 anos. A questão não é a divisão, mas a soma. Nós conversamos, questionamos, mas, quando há divisão de pensamento, vale a máxima da amizade, do conhecimento.

George Magaraia
Beto Brant e Renato Ciasca

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