¿O Oriente Médio é tema arriscado para estrangeiros¿, diz Amos Gitai

O cineasta israelense, um dos mais importantes em atividade, está no Rio para apresentar sua retrospectiva

Mariane Morisawa, especial para o iG |

George Magaraia
Amos Gitai em entrevista exclusiva para o iG

O israelense Amos Gitai, que participou quatro vezes da competição do Festival de Cannes e três em Veneza, está no Rio pela segunda vez para apresentar retrospectiva de onze de seus filmes – cinco deles graças ao Ministério de Cultura francês, que promove uma espécie de turnê mundial de "Esther" (1986), "Kippur" (2000), "Alila" (2003), "Notícias do Lar / Notícias de Casa" (2005) e "Aproximação" (2007). Além desses, integram a mostra "Berlim Jerusalém" (1989), "Golem", "O Espírito do Exílio" (1992), "Kadosh" (1999), "Kedma" (2002), "Free Zone" (2005) e "Mais Tarde Você Vai Entender" (2008). A obra é vasta e variada e frequentemente vê de forma crítica a história de Israel e a realidade do país hoje. Muitos dos longas já não passam mais, mas confira abaixo as datas de exibição dos outros. Leia a seguir trechos da entrevista exclusiva de Amos Gitai ao iG:

iG: Quando você participa de uma retrospectiva como essa, repensa a sua obra?
Gitai: Para mim, é interessante porque é um jeito de conectá-las... Meus filmes são como páginas de um mesmo diário, então há uma espécie de continuidade.

iG: Como iniciou a carreira de cineasta?
Gitai: Eu estava estudando arquitetura, porque eu queria seguir os passos de meu pai. Ele era arquiteto da Bauhaus. Quando ele morreu, exatamente 40 anos atrás, eu estava fazendo meu serviço militar, como todos os israelenses, e não tinha ideia do que queria. Pensei: vou estudar o mesmo que ele. Depois de me formar, fiz o PhD em Berkeley e aí resolvi fazer outra coisa. Foi uma jornada interessante. Não ficava exigindo de mim mesmo ser bem-sucedido instantaneamente. Quando vejo um jovem cineasta, a pressão que ele sente ou em que se coloca não é sempre uma boa ideia. Houve um longo período em que estava estudando uma coisa e pouco a pouco fui começando a tomar a decisão de me tornar cineasta.

George Magaraia
O israelense, que participou quatro vezes da competição do Festival de Cannes e três em Veneza, está no Rio pela segunda vez
iG: É difícil decidir ser cineasta?
Gitai: Nem sinto que tenha escolhido, eu gostava disso. E ainda gosto. Quando eu parar de me divertir, não conseguirei mais fazer bons filmes. O prazer é muito necessário.

iG: Agora você tem sucesso na sua carreira, mas claro que os filmes são recebidos de formas diferentes. Como lida com isso?
Gitai: Tudo bem, é normal. A recepção de um filme é algo traiçoeiro, você precisa ser paciente. Às vezes você fala algo difícil demais para a sociedade digerir. Não quer dizer que o filme não seja bom. Você tem de fazer o que tem de fazer, é isso.

iG: Quais são seus próximos projetos?
Gitai: Tenho alguns, estou pensando. Fui ontem para Salvador e gostei muito. Quem sabe eu faça um projeto em Salvador? Não é grande demais e tem uma mistura interessante de arquitetura antiga e desse lixo que dominou o mundo.

iG: Você é considerada uma voz equilibrada sobre os problemas e conflitos envolvendo o seu país.
Gitai: Eu tento ser. Primeiro, é um conflito complicado. Segundo, é muito manipulado. Todos os lados usam a mídia. Eles acham que são muito bem-sucedidos, eu acho que eles foram bem-sucedidos em intoxicar a história toda. Então eu tento falar do jeito como penso.

iG: Você já viu o filme de Julian Schnabel sobre a história de Israel, Miral, que passou no Festival de Veneza?
Gitai: Eu não vi. Ouvi dizer coisas não muito boas. Mas é um assunto muito difícil. O Oriente Médio é um tema arriscado para estrangeiros, porque você pode muito facilmente cair nos clichês. Não vi o filme de Schnabel, estou falando em geral. Muito bons cineastas fizeram filmes esquemáticos, porque eles começam a fazer algo, aí eles sentem-se culpados e tentam equilibrar. Então fica um pouco do sofrimento palestino, e aí um pedaço de Segunda Guerra Mundial para os judeus e vira uma grande salada. E é um erro, porque como em tudo, você precisa ser claro. Tome posição, arrisque-se e diga o que quer. Os melhores filmes até agora, com exceção de um documentário de Pasolini e um filme de Chris Marker, são todos feitos ou por palestinos ou por israelenses.

iG: Suas vitórias e participações tão frequentes em festivais internacionais, assim como o Leão de Ouro para Líbano, no ano passado, ajudam o cinema israelense?
Gitai: Eu acho que sim. Os festivais são uma forma de distribuição. Eles também ajudaram muitos diretores a escapar certos provincianismos de seus próprios países, como no Irã. É ótimo, porque significa que governos autoritários não conseguem estrangular os criadores. Quando comecei a fazer filmes, tive problemas com autoridades em Israel. Mas sempre achei que a melhor homenagem que alguém pode fazer a seu próprio país é produzir cinema forte e crítico. Se o país é forte, pode produzir cinema forte e crítico. Países fracos tentam apenas fazer produtos de relações públicas. Acho que a grande época do cinema brasileiro foi quando esse grupo de diretores usou o contexto como pano de fundo artístico. Agora, em Salvador, me disseram que o Estado emitiu um pedido de desculpas oficial a Glauber Rocha. E acho que eles devem mesmo pedir desculpas. Talvez em alguns anos eles peçam desculpas a mim, e deveriam.


George Magaraia
Ele apresenta uma retrospectiva de onze de seus filmes ¿ cinco deles graças ao Ministério de Cultura francês

iG: Mas você acha que contextos políticos complicados geram cinema melhor?
Gitai: Eu não recomendaria, mesmo se acabasse com o cinema. O meu primeiro filme, House, que fiz 30 anos atrás, ainda é relevante. É muito bacana para mim como cineasta, mas nem um pouco bacana para a região. Eu preferiria que o problema tivesse sido resolvido.

iG: Qual sua solução para o problema?
Eu não tenho. Devemos fazer os políticos trabalharem.


Serviço:
"Kadosh", "Kippur", "Kedma", "Alila", "Free Zone" e "Mais Tarde Você Vai Entender" não passam mais.
Confira as datas de exibição dos outros:
"Esther" – sábado (2), às 14h e às 18h, no Instituto Moreira Salles, e domingo (3), às 23h30, no Estação Botafogo 3.
"Berlim Jerusalém" – segunda (4), às 23h30, no Estação Botafogo 3.
"Golem, o Espírito do Exílio" – sábado (2), às 16h e às 20h, no Instituto Moreira Salles, e terça (5), às 23h, no Estação Botafogo 3.
"Notícias do Lar / Notícias de Casa" – Sábado (2), às 23h30, no Estação Botafogo 3, e quinta (7), às 16h, no Instituto Moreira Salles.
"Aproximação" – domingo (3), às 13h15, no Estação Botafogo 3.

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