Gus Van Sant filma "melhor fase da vida" em "Inquietos"

Drama exibido em Cannes está no Festival do Rio 2011; leia entrevista com o diretor

Agência Estado |

Cannes, em maio. Sob um sol de torrar o cérebro, as entrevistas de "Restless" realizam-se na praia do festival. Estavam presentes a produtora Dallas Bryce Howard, os atores Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton, e Henry Hopper (filho de Dennis), o diretor Gus Van Sant. "Restless" abriu a seção Un Certain Regard, que integra a seleção oficial e é a segunda em prestígio, de Cannes, após a competição. Com o título de "Inquietos" , "Restless" é uma das atrações anunciadas do Festival do Rio, que começa hoje. O cinéfilo que estiver no – ou for ao – Rio especialmente para assistir ao festival não pode perder o novo Gus Van Sant. É o melhor filme do autor em anos, e olhem que não lhe falta prestígio. A estreia nas salas está prevista para 25 de novembro.

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Mia Wasikowska e Henry Hopper em "Inquietos", de Gus Van Sant
Figurinha carimbada em Cannes e Veneza, Gus conta que "Inquietos" nasceu como projeto de Dallas Bryce Howard. "Recebi o roteiro através do escritório do produtor Brian Grazer, que costuma trabalhar com Ron [Howard, pai da atriz e, aqui, produtora]. Bryce já vinha trabalhando no filme com o roteirista Jason Lew desde que eu fazia o remake de 'Psicose'." Ou seja, 13 anos. "Recebo muitos roteiros de jovens e sobre jovens. A primeira coisa que me interessa é a história. Depois, avalio questões mais técnicas. O desenho dos personagens, a viabilidade das produções. Tudo era tão perfeito em 'Inquietos', não resisti." 

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Desde o começo de sua carreira, que remonta a "Mala Noche", de 1985, Gus Van Sant tem revelado especial preferência pelos temas da juventude. Por quê? "Porque é a fase mais rica, senão necessariamente a melhor, da vida da gente. Quando jovens, estamos descobrindo o mundo, aprendendo coisas. Temos um olhar fresco, até virgem. Aos 23, 24 anos, as próprias exigências da vida forçam o amadurecimento. Ficar adulto, para a maioria, significa ir contra tudo aquilo em que acreditava."

"Não sou muito de ficar revendo meus filmes, mas 'Garotos de Programa' ["My Own Private Idaho", de 1991], que revi há pouco, porque o filme integra uma exposição de James Franco no Museu de Arte Moderna de Nova York, me trouxe esse olhar mais jovem. Sei que o meu olhar é de um homem maduro, mas filtrado pelo deles [os personagens de River Phoenix e Keanu Reeves], sinto que há uma pureza que ainda não perdi totalmente."

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O diretor Gus Van Sant orienta os atores no set de filmagens
"Inquietos" baseia-se numa peça de Jason Lew e o curioso é que Dallas Bryce Howard se engajou no projeto sem pensar no papel para ela. É a história de uma garota que está morrendo de câncer e que se liga a garoto necrófilo. Desde que perdeu os pais num acidente, ele se comunica com um amigo imaginário, um piloto japonês camicase. O protagonista masculino frequenta funerais e é num deles que cruza com a garota terminal. Juventude e morte, mais uma vez, segundo Gus Van Sant.

Ele conta que escolheu os atores por testes. "Embora tenha filmado em Portland, no Oregon, onde moro, a seleção foi feita em Los Angeles. É incrível como vieram muitos jovens de famílias ligadas ao show biz, a neta de Elvis Presley, por exemplo. Mia, eu já conhecia. Henry [Hopper] foi uma indicação da minha diretora de elenco. Achei-o interessante, mas não foi fácil localizá-lo. Ele vivia, na época, na Alemanha, mais interessado numa carreira de pintor, mesmo que tivesse feito alguns experimentos como ator. A questão era saber se Henry e Mia teriam química. Quando contracenaram pela primeira vez, percebi que a liga vinha justamente das diferenças."

A história, mesmo contemporânea, não parece se desenrolar numa época específica. "Isso já estava um pouco no roteiro, mas veio principalmente de Henry e Mia. Ambos usavam [moda] vintage e o look era tão especial que incorporamos aos personagens."

null"Inquietos" é seu primeiro longa desde "Milk - A Voz da Igualdade" e ele revela que o longa com Sean Penn marcou uma decisiva mudança em seu método. "Sean já vinha trabalhado com Terry [Terrence] Malick e me contou como ele filma o diálogo e, depois, filma a cena do mesmo ângulo, com a mesma disposição dos atores, na eventualidade de precisar de coberturas. Isso permite dissociar imagem e som e modular o ritmo. Filmei a maioria das cenas com e sem diálogo. Poderia fazer uma versão silenciosa de 'Inquietos'."

O filme abre-se com uma canção dos Beatles. "Nunca havia usado música deles, mas a rodagem foi tão econômica que sobrou dinheiro. Pelo tom de 'Inquietos', era difícil arranjar alguma música. Dallas sugeriu... e ela própria bancou a aquisição." Um filme sobre a morte, não depressivo e com muitos silêncios. "Nenhum outro filme meu valoriza tanto os olhares dos atores. Eles falam pelos olhos tanto quanto com palavras e gestos. Mia e Henry foram ótimos."

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