Festival do Rio dedica mostra a Amos Gitai

Cineasta israelense volta suas lentes para o Oriente Médio e o mundo

Ricardo Calil, colunista do iG |

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Natalie Portman vai à Jordânia em "Free Zone", de Amos Gitai
Aí vai uma modesta sugestão para o processo de paz no Oriente Médio: chamar o cineasta israelense Amos Gitai para colocar na mesa as suas ideias – de preferência, ao lado de seu colega palestino Elia Suleiman.

Porque a obra de Gitai nada mais é do que um esforço de reconhecimento e compreensão primeiro de si mesmo, depois de seu país e, por fim, do outro – o que me parece um belo ponto de partida para qualquer conversa sobre a paz.

No Festival do Rio 2010, será possível ter um panorama abrangente da trajetória de Gitai, com 11 filmes do cineasta, que virá ao Brasil. Começa com sua trilogia inspirada na lenda do Golem, o boneco de barro criado por um rabino que protege o povo judaico de possíveis agressores.

“Ester” (1986), seu primeiro longa, baseia-se no personagem do Velho Testamento, a mulher que, sem saber que é judia, se casa com um rei persa, descobre sua origem e evita um plano para exterminar seu povo. O cineasta contrapõe a história bíblica a uma narrativa que expõe os extermínios promovidos por judeus em tempos recentes – o que já dá uma boa ideia da visão de mundo e do projeto de cinema de Gitai, ao mesmo tempo equilibrado e crítico. A trilogia completa-se com “Berlim Jerusalém” (1989) e “Golem, o Espírito do Exílio” (1992).

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O cineasta israelense Amos Gitai
De sua trilogia seguinte, inspirada por cidades de Israel (Gitai formou-se em arquitetura e a exploração visual dos espaços sempre foi marca forte de seu cinema), vem ao festival apenas “Kaddosh” (1999). Com sua história sobre o choque do amor com a religião, passada no bairro ultraortodoxo de Mea Shearim, em Jerusalém, o filme foi selecionado para o Festival de Cannes e chamou atenção internacional para a obra de Gitai.

“Kippur” (2000), seu filme seguinte, que também competiu em Cannes, talvez seja o ponto mais alto da carreira de Gitai – e também seu trabalho mais pessoal. Ele reconta sua experiência na guerra do Yom Kippur, para onde levou sua câmera de Super-8, usada nas missões de helicóptero (experiência fundamental para a decisão de abraçar o cinema). Com longos planos sem cortes e pouquíssimos diálogos (outras das marcas de seu estilo) – como na antológica cena em que soldados israelenses tentam carregar um homem numa maca em meio à lama –, Gitai consegue dar conta não só do horror, como também da irracionalidade da guerra.

Outro filme importante em sua trajetória, por revelar claramente seu olhar para o mundo, é “Free Zone” (2005), em que uma americana judia (Natalie Portman) vai com uma taxista israelense a uma zona de comércio na Jordânia para recolher uma soma de dinheiro com uma palestina. Gitai parece nos indicar, até porque as coisas não são manifestadas de forma direta e simplista em sua obra, que um pouco de sabedoria feminina não faria nada mal à política do Oriente Médio.

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Diretor relembra guerra em "Kippur"
Gitai tem uma obra documental tão relevante quanto seu trabalho de ficção, mas o único documentário escolhido para participar da retrospectiva é “Notícias do Lar/Notícias de Casa” (2005). Trata-se de mais uma conclusão de trilogia, sobre um prédio em Jerusalém que foi visitado por Gitai em “House” (1980) e “A House in Jerusalem” (1998). Ele retorna ao local para compreender que ele não é mais um microcosmo da sociedade de seu país 25 anos atrás, que os moradores israelenses e palestinos se dispersaram, mas as memórias pré-diáspora permanecem.

Da obra recente de Gitai, o festival traz “Mais Tarde Você Vai Entender” (2008), que contempla de certa forma o lado mais cosmopolita da obra do cineasta (que estudou nos Estados Unidos e viveu muito tempo em Paris). Em Paris, uma senhora e seu filho acompanham pela TV as notícias sobre o julgamento do carrasco nazista Klaus Barbie e são afetados por memórias terríveis que não conseguem colocar em palavras.

Mesmo em um filme totalmente rodado em Paris, Gitai não consegue deixar de olhar para o passado de seu país – para que os espectadores possam compreender melhor seus impasses no presente.

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