¿Estamos presos dentro de nossos corpos¿, diz Saverio Costanzo

Diretor de 'A Solidão dos Números Primos' fala do corpo como única manifestação política e comenta situação do cinema de seu país

Mariane Morisawa, especial para o iG |

O diretor italiano Saverio Costanzo tentou escapar, quando caiu em suas mãos a adaptação do livro "A Solidão dos Números Primos", de Paolo Giordano, um best-seller na Itália, onde vendeu milhões de cópias, e já lançado no Brasil. “Como o livro é muito popular, é uma armadilha, porque sempre haverá comparações”, disse com exclusividade ao iG , na manhã desta segunda-feira (04). O filme será exibido no Festival do Rio nesta terça-feira (05) e na quarta-feira (06). “E minha personalidade é muito diferente da de Paolo Giordano, meu jeito de fazer cinema é muito diferente do jeito dele de fazer literatura. A escrita dele é muito discreta, eu sou mais direto e violento”, contou. “Mas me apaixonei por algumas imagens e me forcei a dirigir.”

George Magaraia
Saverio Costanzo e Alba Rohrwacher

"A Solidão dos Números Primos" é uma história de amor envolvendo Alice (Alba Rohrwacher) e Mattia (Luca Marinelli), que começa quando os dois são adolescentes desajustados. Ambos carregam traumas de infância: ela manca desde que sofreu um acidente de esqui, e ele se culpa pelo desaparecimento da irmã deficiente. Não se encaixam no mundo cruel dos colégios. É uma trajetória cheia de percalços, encontros e desencontros.

Alba Rohrwacher, que também está no Rio, sempre pareceu uma escolha óbvia para o cineasta, por conta de sua aparência frágil. Costanzo decidiu procurar alternativas. “Mas não encontrei e fico feliz. Ela foi muito corajosa, ela é mais artista que atriz”, diz Costanzo. Alba conta que tinha lido o livro, mas foi o encontro com o cineasta que provocou seu interesse. “Gostei de seu ponto de vista. Alice virou uma menina irônica, uma mulher forte, capaz também de liderar, não uma coitadinha”, disse. Ela precisou emagrecer 10 quilos para viver a personagem sete anos depois do último desencontro com Mattia. O ator Luca Marinelli precisou engordar sete. O diretor fazia questão de que os atores realmente passassem pelo processo. “Havia duas razões. A primeira é político-filosófica. O livro é importante hoje, ele não poderia existir 20 anos atrás, nos anos 1970, quando as pessoas estavam lutando por um mundo melhor. Hoje estamos presos dentro de nossos corpos, nós implodimos por dentro. Como não há ideologias fora do corpo, nossa alma está confinada dentro de nosso corpo, o que nos dá uma sensação de claustrofobia”, disse. “A outra razão é concreta, porque a história volta sete anos depois. Eu precisava fazer o público acreditar em 30 segundos que esse tempo tinha passado.”

Exibido no último Festival de Veneza, "A Solidão dos Números Primos" foi jogado no mesmo balaio de bombas italianas, como "La Passione", "Noi Credevamo" e "La Pecora Nera", mas era o único filme de verdade entre os concorrentes do país. Sem ousadias estéticas, mas competente. O cinema italiano, que produziu mestres como Luchino Visconti, Vittorio de Sica, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, para citar poucos, atravessa uma crise profunda. “O cinema italiano fundou o cinema moderno, ainda estamos presos àqueles mestres do passado. Não acho que a Itália faça 41 filmes bons por ano, fazemos no máximo 4 ou 5. E havia 41 filmes italianos em Veneza. Para mim, isso quer dizer que algo fede”, disse Costanzo. “Ainda temos 5 ou 6 dos melhores cineastas do mundo, mas falta dar-lhes chances. De qualquer forma, é preciso pelo menos dez filmes por ano para deixar uma marca, como o cinema chinês deixou nos últimos anos ou o dinamarquês nos anos 1990. Eu acho que algo está mudando, mas precisamos de tempo para voltar ao centro do palco.”

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