Entrevista com o diretor uruguaio Sebastián Bednarik

O documentarista investigou as relações entre o poder e o esporte na realização do Mundialito de 1980

Mariane Morisawa, especial para o iG |

 Sebastián Bednarik era um garotinho de 5 anos de idade quando o Uruguai sagrou-se campeão do Mundialito – campeonato disputado por Argentina, Brasil, Holanda, Alemanha, Itália e os donos da casa – em 1980. O uso do futebol para fortalecimento dos regimes militares que dominavam os países sul-americanos nas décadas de 1970 e 1980 não é novo, mas o caso específico deste torneio nunca tinha sido explorado como no documentário “Mundialito”, que integra a Mostra Latina e tem exibições nesta sexta-feira (1) e na terça (5). Sebastián falou com exclusividade ao iG

iG: Você nasceu em 1975 e o filme conta história de 1980. Como chegou até você?
BEDNARIK: Tenho memórias vagas do Mundialito, era muito pequeno. Me lembro de ver na televisão, mas mesclado com outras partidas, porque minha família é muito fã de futebol. A história chegou mais por uma questão de tradição oral, mas o que me chamou a atenção foi como se sabia tão pouco sobre esse campeonato. E me interessou indagar por que esse campeonato estava embaixo do tapete, escondido.

iG: Já tinha ouvido falar que o campeonato tinha a ver com o período militar?
BEDNARIK: Sim, mas era muito fácil dizer que tinha sido o campeonato organizado pela ditadura. Não foi tão assim. O mais interessante é que foi uma espécie de co-produção entre civis e militares.

George Magaraia
Diretor uruguaio Sebastián Bednarik
iG: As pessoas foram receptivas ao falar do campeonato?
BEDNARIK: Por um lado, trabalhamos com Geraldo Caetano, um historiador que tem a particularidade de ter sido jogador de futebol. Ele fez uma vasta investigação nos arquivos da Federação Uruguaia, que não são muitos, e também nos da inteligência. Por outro lado fizemos mais de 70 pré-entrevistas com jogadores de futebol, políticos, militares e dirigentes. Muitos falaram sem receios. Os dirigentes esportivos foram os que mais se mostraram reservados ao falar. O ex-presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, foi presidente da comissão de tesouraria e contabilidade do Mundialito, mas não quis falar. Alguns militares também não.

iG: Você veio ao Brasil para fazer entrevistas também, não?
BEDNARIK: Fizemos duas entrevistas. A primeira em São Paulo, com Sócrates, que foi maravilhoso, foi uma honra conhecê-lo. Atrás das câmeras é uma pessoa de cultura impressionante, com uma visão muito interessante sobre o futebol. E viemos ao Rio falar com João Havelange, foi muito difícil conseguir a entrevista, ficamos quase acampados na porta de seu escritório. Finalmente ele deu a entrevista, que transcorreu em clima um pouco tenso, porque creio que ele pensava que estávamos fazendo documentário totalmente esportivo e descobriu que queríamos saber sobre a questão política e a relação entre a FIFA e os governos de onde se realizam os campeonatos. Falamos também da Copa de 1978 na Argentina, que também teve suas peculiaridades na questão política, da ditadura. Mas sempre com muito respeito tanto da parte dele quanto nossa. Foi bom que Havelange dissesse sua verdade.

iG: Qual a informação mais surpreendente?
BEDNARIK: Houve uma entrevista sobre um homem que salvou o campeonato, porque estava tudo pronto mas faltava o dinheiro. Os canais internacionais não queria comprar o campeonato. E ele achou uma pessoa que estava fundando seu canal e interessado em romper o monopólio da RAI, Silvio Berlusconi, que foi o primeiro a comprar os direitos e a partir daí o campeonato se tornou realidade.

iG: Por que há poucos filmes sobre futebol?
BEDNARIK: Mais do que o futebol, me interessava a questão política e o passado recente. Sou de uma geração que pouco se expressou sobre o tema, sobre a ditadura, sobre esse período de 1973 a 1985. Me interessava muito como diretor não contar histórias que já foram contadas. Há muitos documentários sobre a ditadura, mas nada sobre o futebol e a ditadura.

iG: Como anda o futebol uruguaio?
BEDNARIK: Está bem, fomos bem na Copa. Mas talvez porque no momento do Mundial estivesse na ilha de edição fui vendo o que ocorria hoje no meu país. Teve outros significados. A boa campanha também foi utilizada pelo governo, mas o pólo oposto de 1980 porque José Mujica, o atual presidente, era do movimento tupamaro e estava preso na época da ditadura. Apesar de ser com outro tato, o presidente de certa forma também utilizou a vitória. Me serviu também para não julgar tanto o povo de 1980 por comemorar tanto o Mundial.

George Magaraia
Sebastián Bednarik concedeu entrevista exclusiva ao iG

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