Emanuele Crialese: “Se somos civilizados, devemos agir como tais”

Diretor italiano fala da imigração em “Terraferma”, premiado em Veneza e que tem sessão de gala na noite desta segunda (10)

Mariane Morisawa, especial para o iG |

Emanuele Crialese é um dos nomes mais interessantes do cinema italiano da atualidade. Diretor de “Respiro” e “Novo Mundo”, ele está no Rio para apresentar “Terraferma”, que trata da imigração, um problema urgente em seu país e na Europa em geral. O filme levou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Veneza e foi indicado como representante da Itália na disputa por uma indicação ao Oscar de produção em língua estrangeira.

Por isso mesmo, Crialese estava interessado em assistir ao seu concorrente brasileiro, “Tropa de Elite 2”, de José Padilha. O cineasta falou com exclusividade ao iG sobre “Terraferma”, que tem sessão de gala na noite desta segunda-feira (11), às 19h15, no Cine Odeon:

iG: Por que quis fazer um filme sobre a imigração?
CRIALESE:
O movimento humano é o principal tema deste século. Na verdade, desde 1900 há ondas gigantescas de movimentação pelo mundo. Mas, na época, a América precisava dos imigrantes. Agora é diferente. A Europa não precisa dos imigrantes. Como vemos e percebemos os imigrantes mudou.

Fiquei pensando em como tudo isso resume o homem ao que ele pode dar com seu trabalho. E estamos esquecendo a lei que prega que os seres humanos devem ser cuidados e respeitados. O sentido de solidariedade se perdeu.

iG: Como vê a maneira que seu país, a Itália, trata os imigrantes?
CRIALESE: Não é só a Itália, é toda a Europa. Acho que as pessoas estão amedrontadas e confusas. Não há empregos. Tento não julgar, mas fazer perguntas. Só acho que, se somos pessoas civilizadas, deveríamos agir como tais. Temos um problema na África. Não adianta sairmos “libertando” países se não damos condições para que se desenvolvam. Onde está nossa civilização se deixamos que as pessoas se afoguem tentando atravessar o mar?

iG: Mas é um tema controverso, não?
CRIALESE:
O principal desafio era fazer um filme sobre algo que está acontecendo no presente, sem ter a distância histórica. Pensei: como fazê-lo sem que ele envelheça imediatamente? Então me impus o desafio de contar uma história que uma criança de sete anos de idade pudesse entender.

iG: Não ficou com medo das reações?
CRIALESE: Fiquei surpreso de o filme ter sido tão bem recebido. Todas as noites, as pessoas ouvem histórias sobre esse assunto na televisão. Mas me dei a liberdade de não pensar na bilheteria desta vez. E, para um filme sem estrelas, com um assunto indigesto, ele foi bem. Claro que a escolha para ser o representante italiano na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro ajudou também.

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