Competição da Première Brasil foi mediana e equilibrada

É difícil apostar em favoritos, ainda que "Riscado" pareça ter ligeira vantagem

Mariane Morisawa, especial para o iG |

A competição de filmes de ficção do Festival do Rio costuma reunir muitas das produções brasileiras mais aguardadas do ano. Nesta edição da Première Brasil, porém, faltou aquele longa de que todo o mundo sai falando.

Não que a seleção tivesse bombas, como tem sido normal na maior parte dos festivais. Todos os filmes eram fáceis de assistir e normalmente fáceis de esquecer. São produções com algum potencial de conversar com o público, algo incomum para grande parte dos filmes brasileiros, mas que talvez fiquem um pouco deslocados numa competição. O júri vai ter de escolher entre longas-metragens imperfeitos ou pouco relevantes.

George Magaraia
Moura é uma das apostas para o troféu de melhor ator do festival pelo seu trabalho em "Vip's"

"Riscado", de Gustavo Pizzi, tem sido um dos mais comentados nas rodinhas de discussão. Sua protagonista, Karine Teles, surge como uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz no papel de uma atriz que acredita ter finalmente a grande chance quando um cineasta resolve basear-se em sua vida para rodar um filme. O problema de "Riscado" é sua previsibilidade. Mas, olhando em retrospecto, é um dos mais sólidos e regulares em termos de cinema.

A irregularidade é a marca de "O Senhor do Labirinto", de Geraldo Motta, que alterna ótimos momentos com coisas primárias, como narração com cara de vídeo escolar no início e uma maquiagem que só serve para distrair. "Boca do Lixo", de Flavio Frederico, impressiona pela correção e pela reconstituição de época cuidadosa. Mas não avança muito em termos de complexidade. Já "Além da Estrada", de Charly Braun, e "Malu de Bicicleta", de Flavio Tambellini, são tão despretensiosos que fica até difícil considerá-los para algum dos principais troféus, ainda que o filme de Tambellini seja mais bem realizado do que o primeiro.

De certa forma, "Elvis e Madona", de Marcelo Laffitte, também sofre de despretensão, ainda que aponte para uma transgressão ao falar do amor entre um travesti e uma lésbica. O filme agradou muito ao público, justamente por brincar com algumas piadas fáceis. Apesar do elenco infantil carismático, "Trampolim do Forte", de João Rodrigo Mattos, tem uma mal resolvida e rocambolesca trama, além de usar muitas imagens batidas. "Como Esquecer", de Malu de Martino, consegue escapar de alguns clichês dos filmes de separação, mas seus problemas de roteiro emperram o seu desenvolvimento. "VIPs", de Toniko Melo, também sofre de defeito estrutural, ao tentar transformar um golpista que gosta de aparecer em ser atormentado e obcecado pelo pai e pela aviação.

A maior chance de prêmio para o filme é o troféu de melhor ator para Wagner Moura, que novamente arrasa, alternando delírio, inadequação, euforia e tristeza. Seus grandes concorrentes são Daniel de Oliveira, mais uma vez irreconhecível como o criminoso Hiroito de "Boca do Lixo", e Flávio Bauraqui, fazendo o artista esquizofênico Arthur Bispo do Rosário em "O Senhor do Labirinto", tipo de papel que costuma chamar a atenção.

George Magaraia
Simone Spoladore, um dos nomes cotados para ganhar o prêmio de melhor atriz do Festival do Rio, deixa a delicadeza de lado em "Elvis e Madona"

Já no caminho de Karine Teles para o prêmio de melhor atriz, há Fernanda de Freitas, que mostra frescor em "Malu de Bicicleta", e Simone Spoladore, que deixa a delicadeza de lado e aparece forte em "Elvis e Madona". É bem possível, no entanto, que haja recompensa para o esforço e o desprendimento de Ana Paula Arósio em "Como Esquecer", fazendo uma personagem desagradável e difícil, sem temer cenas de nudez e de masturbação.

É bom lembrar que, claro, a seleção da Première Brasil é um reflexo daquilo que está sendo produzido. E este 2010 não tem sido um bom ano em termos de cinema nacional.

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