¿A gente não esquece como filma¿, diz Arnaldo Jabor

Cineasta falou em coletiva de imprensa sobre A Suprema Felicidade, sua volta às telas depois de 24 anos

Mariane Morisawa, especial para o iG |

Arnaldo Jabor empolgou-se na coletiva de imprensa de "A Suprema Felicidade" na manhã desta terça-feira (28), no Pavilhão do Festival do Rio, na Gamboa. Verborrágico como em seus agudos comentários políticos, ele disse que parou com o cinema, na década de 1990, porque a situação estava terrível. “Tinha feito um filme que deu 4,5 milhões de espectadores (Eu Sei que Vou te Amar) e não tinha dinheiro. Pensei: que profissão é essa em que você trabalha, faz sucesso, ganha prêmio, estoura na bilheteria e não tem dinheiro? Tinha de sustentar meus filhos”, contou. “Ser cineasta é angustiante, você demora de três a quatro anos em cada filme. A vida do cineasta puro é dividida em filmes, vivi nove filmes e morri. Tragicamente, começou a morrer cineasta. Pensei: vou sair daqui, Deus está fulminando cineasta.” Foi assim que voltou-se para o jornalismo, profissão que permitiu sua volta às telas no filme que abriu o festival e que estreia dia 29.

AgNews/Roberto Filho
A equipe do longa "A Suprema Felicidade" se reúne em coletiva no Pavilhão do Festival do Rio

O argumento do longa-metragem, uma série de reminiscências inspirados em sua juventude na década de 1950, foi surgindo naturalmente. “Escrevi um artigo sobre meu pai, depois sobre minha mãe, sobre a minha turminha, a primeira namorada. Sempre tive ideia de que vida de classe média não tem o que contar, não acontece nada. Quando você começa a pensar, vê que é uma épica. Porra, aconteceu coisa pra cacete na minha vida! Claro que não fui invadir a floresta para pegar jacaré, não.” Mas ele nega que se trate de autobiografia e define "A Suprema Felicidade" como uma “revisão lírica de coisas que vivi e conhecia”. “Uma das coisas que acometem o cinema mundial, a literatura, as artes em geral, é ausência de clareza sobre o que falar, porque o mundo está muito difícil de ser decifrado. Ninguém tem uma solução para o mundo.”

O cineasta contou que não acha que a ausência dos sets tenha feito muita diferença. “A gente não esquece como filma. Na primeira semana fiquei um pouco nervoso, depois foi. O que me surpreendeu foi o avanço técnico, agora pode tudo, antes não podia nada.” Quando surgiu a comparação com os filmes de Federico Fellini, ele disse que “o que tem de Fellini é a estrutura dramática, não fiz enredinho. São cenas que vão se somando, cenas têm de ser boas em si. Acho um crime dar um sentido único a um filme, porque a vida não tem um sentido só. E vamos combinar que não tem happy end, infelizmente todos morreremos um dia, o que é uma chateação.”

Roberto Filho/AgNews
O cineasta Arnaldo Jabor é ladeado pelos atores do longa Mariana Lima e Jayme Matarazzo
Indagado se Arnaldo Jabor é um cineasta que faz obras sobre a classe média, ele afirmou: “Sim, sou um cara de classe média”. Lembrou que, quando fez seu primeiro longa, "Opinião Pública", em 1967, era tudo muito ideologizado, proletariado de um lado, burguesia do outro. “Pensei: ninguém fala da classe média, eles mudaram o Brasil, tinha tido o golpe militar, os militares eram classe média, a Marcha com Deus. Me lembrei de uma frase que Nelson Rodrigues disse para mim, quando eu vinha com meu discurso marxista: ‘Jabor, o homem é de classe média’.” Jabor disse que não sabe ainda se vai fazer outro filme, que vai depender da recepção a este.

Jayme Matarazzo, que interpreta o protagonista Paulinho na juventude, disse que o filme foi sua grande escola. “Trocar ideia com o Jabor foi um privilégio, "A Suprema Felicidade" vem para somar forças na minha vontade de continuar aprendendo, com calma, tranquilidade”, disse o ator. “Tenho gostado muito da vida, e a vida tem gostado muito de mim”, completou Jayme, parafraseando o personagem de Marco Nanini no filme.

Roberto Filho/AgNews
Os atores Jayme Matarazzo, Mariana Lima e Caio Manhente posam em frente ao cartaz do longa

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