"Venho de um país onde a família pesa para toda a vida", diz Vinterberg

Em "Submarino", cineasta dinamarquês retoma o tema; leia entrevista concedida ao iG

Orlando Margarido, enviado especial a Berlim |

Na primeira entrevista com jornalistas após a exibição de "Submarino" no Festival de Berlim , Thomas Vinterberg afirmou que nunca abandonou o tema da família desde que ganhou reconhecimento com "Festa de Família", no final da década de 1990. Na tarde desta segunda-feira (15), reunido com um pequeno grupo da imprensa internacional do qual o iG fazia parte, o diretor retomou o assunto para explicar que "Submarino", seu novo filme em competição, embora pareça integrar a vertente, tem para ele outra conotação.

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O diretor Thomas Vinterberg posa para a imprensa no Festival de Berlim, em 2010
"Para mim, trata-se mais de dois irmãos que tentam desesperadamente atingir a superfície, numa luta para escapar de uma profundeza sombria e terrível em que estão mergulhados." O cineasta dinamarquês gosta das metáforas para explicar seu trabalho. É preciso esclarecer que um dos irmãos, Nick, é um ex-detento, e o caçula um viciado em drogas dedicado a criar seu filho. Ambos buscam apenas sobreviver, apesar da tragédia que os uniu na infância, quando testemunharam a morte de um terceiro irmão, ainda bebê, pelo descaso da mãe alcoólatra.

Quem viu "Festa de Família" lembra que a sombra que acompanhava ainda adulto o protagonista do filme não era menos terrível e amarga. Envolvia abuso sexual e o acerto de contas veio em meio a um jantar do clã. No novo filme, baseado num livro homônimo cujo título o diretor não sabe explicar a origem, não há apenas um momento de erupção, mas vários.

"Do país onde venho, as famílias são um peso para toda a vida. Basta ver na literatura escandinava, em casos como de Strindberg, ou no cinema de Bergman", apontou. "As pessoas podem guardar seus problemas até um certo momento e explodir, ou tentar lidar com eles aos poucos, com altos e baixos em suas vidas. É o que acontece com esses irmãos."

Vinterberg se diz um cineasta da vida burguesa, que possui pouco conhecimento da vida à margem em que Nick e o irmão (que permanece sem nome) estão imersos. No caso do universo das drogas pesadas, ele conta que recorreu a um antigo amigo da escola que se recuperou do vício para acompanhá-lo às ruas e seus traficantes, códigos e métodos de venda, já que o caçula se torna um deles. "Não faço muito esse tipo de pesquisa, prefiro mais a intuição. Mas nesse caso foi preciso, é um ambiente completamente fechado, desconhecido para nós."

Apesar do tom geral pessimista, Vinterberg acredita ter mostrado esperança com seus personagens. Ele concordou com a ideia propositada de focar a câmera nos olhos de Nick para captar a ternura ainda persistente no corpo do homem brutalizado pela vida e frequentemente com rasgos de ira. "Há razão nisso, pois depois ele encontrará no sobrinho outro testemunho possível de candura, de ingenuidade, de uma saída, enfim, da sordidez em que se instalaram."

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