Turco intriga com relação indefinida entre dois amigos

Exibido em Berlim, ¿O Grande Desespero¿ dribla rótulos e mostra direção segura

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

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O triângulo do filme dirigido por Seyfi Teoman: ênfase nas lacunas
Quando “Bizim Büyük Çaresizligmiz” (ou “O grande desespero”, na tradução do inglês) começa, todo o mundo pensa que Ender (Ílker Aksum) e Çetin (Fatih Al) são um casal homossexual. Com o desenrolar do filme dirigido pelo turco Seyfi Teoman, exibido na manhã desta quarta-feira (16) na competição do Festival de Berlim 2011 , o espectador percebe que o cineasta não está interessado em definições, em pretos ou brancos, mas nas áreas de cinza que compõem a vida dos seres humanos.

Os dois ficam com a responsabilidade de cuidar da adolescente Nihal (Günes Sayin), depois que os pais da garota morrem num acidente. Ela é irmã de Fikret (Taner Birsel), grande amigo de Ender e Çetin que mora na Alemanha. No início, traumatizada, a menina não quer saber de nenhum tipo de relação com eles. A dupla, que acaba de concretizar o sonho de infância de morarem juntos, não está muito feliz com o acerto, porém aceitam por amizade. Com o tempo, os três passam a formar uma espécie de família, e posteriormente os dois amigos apaixonam-se por Nihal – outro sonho de infância de ambos.

O longa-metragem confunde as noções definidoras do que é uma relação e de como as pessoas deveriam se portar. Sem dúvida, há amor, tanto entre os dois amigos quanto de cada um deles com Nihal. Tudo é mostrado com muita sutileza, porém. Como na vida, não dá para encaixar o filme nesta ou naquela categoria. Há drama, há comédia e há romance. Ender e Çetin são, na verdade, dois adultos beirando os 40 que percebem que não são mais crianças, apesar de às vezes se comportarem como elas.

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A atriz Guenes Sayin e o diretor Seyfi Teoman
Em seu segundo trabalho, Seyfi Teoman aposta nas lacunas, nas cenas que não se concretizam, naquilo que acontece fora da cena. Ainda que não esteja no mesmo nível dos dois favoritos até agora – o iraniano “Jodaeiye Nader az Simin” (Nader e Simin, uma separação) e o húngaro “A Torinói Ló” (O cavalo de Turim) –, “Bizim Büyük Çaresizligmiz” é um bom filme, de um diretor que sabe o que faz e não cai na irrelevância como os outros concorrentes.

Na coletiva de imprensa que se seguiu ao filme, o diretor e os dois atores principais comentaram sobre essa relação especial entre Ender e Çetin. “Quando li o roteiro, também achei que eram gays. Depois desenvolvi essa percepção de que não é sobre isso”, afirmou Ílker Aksum. Para o ator Fatih Al, no fundo, trata-se de uma resposta para a pergunta “o que é arte?”. “Se você tem dois homens juntos, arrá, são homossexuais. A arte aqui é para mostrar que outro tipo de relação existe. Durante a filmagem, eu aprendi a amar Ílker e Ender. Se eu não fosse casado, perguntaria se ele não gostaria de morar comigo”, disse, provocando risos.

O diretor Seyfi Teoman acrescentou: “É uma amizade profunda, que realmente se aproxima de uma relação de amor. Eles são parceiros, quase como um casal de homem e de mulher”. Mais tarde, ele completou: “Dizer que são gays é submeter a uma definição. Queremos as partes cinzas, há outros modelos de relacionamento. Não é preconceito, não há nada reprimido”.

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