Na metade, competição de Berlim tem filmes bons, mas não sensacionais

Sem favoritos, festival se apoia em histórias de amor e temática da família, cara a Mike Leigh

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

Em 2011, foi só na terça-feira da última semana do Festival de Berlim que apareceram os dois francos favoritos, “A Separação”, de Ashgar Farhadi, que terminou por levar o Urso de Ouro , e “O Cavalo de Turim” , de Béla Tarr, vencedor do Grande Prêmio do Júri. Os dois filmes, excepcionais, vieram salvar uma competição com poucos destaques e muitas produções simplesmente ruins.

Neste ano, é diferente. Até esta terça-feira (14), na última semana da competição, não apareceu nenhum filme sensacional, daquele que surge e imediatamente torna-se favorito. Em compensação, à exceção do espanhol “Dictado” , de Antonio Chavarrías, sem nenhuma qualidade para estar concorrendo ao Urso de Ouro, nenhum longa-metragem até agora pode ser considerado ruim. Mas, até por conta disso, escolher o melhor também torna-se uma tarefa mais complicada.

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“Tabu” , do português Miguel Gomes, coprodução com participação do Brasil, com a Gullane Filmes, é, sem dúvida, o mais ambicioso, dado importante para um festival do porte de Berlim. Se a mensagem política, tão querida pelo evento, está diluída na história de amor, há ousadia formal de sobra para fazer dele um dos favoritos até aqui.

“Barbara” , do alemão Christian Petzold, é, igualmente, uma história de amor passada num período difícil, na Alemanha Oriental. Ele é muito mais simples em termos de linguagem, até porque tem uma abordagem mais concisa mesmo. Os protagonistas Nina Hoss e Ronald Zehrfeld podem ser considerados bons candidatos aos prêmios de atuação.

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A atriz alemã Nina Hoss em "Barbara": amor em Berlim Oriental
“Cesare Deve Morire” , dos italianos Paolo e Vittorio Taviani, faz o paralelo entre o poder, a tirania e a obediência de “Julius Caesar”, de William Shakespeare, e a vida criminosa dos presos de um presídio perto de Roma. A interpretação dos atores não-profissionais impressiona – e é o tipo de coisa que Berlim adora premiar –, ainda que se aparente mais do teatro do que do cinema.

“Captive” , de Brillante Mendoza, traz a urgência da questão do terrorismo, com cenas de ação lindamente filmadas, mas que se sobrepõem ao drama profundo vivido pelos sequestrados e pelos membros do grupo armado Abu Sayyaf. É uma decepção, em se tratando do diretor.

O francês “Aujourd’hui” , de Alain Gomis, é poético, mas perde-se na hora de falar da realidade social e política do Senegal. Ele integra uma linha temática importante deste Festival de Berlim, que é a família – objeto favorito do presidente do júri, Mike Leigh . “À Moi Seule” , de Frédéric Videau, constrói bem os personagens da família forçada formada pelo sequestrador Vincent e a garota Gaëlle.

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Isabelle Huppert em "Captive": decepção
“Jayne Mansfield’s Car” , de Billy Bob Thornton, tem ótimos – e divertidos – momentos, algumas cenas excelentes, mas também recorre a certos expedientes batidos. Tem três bons concorrentes ao troféu de melhor ator, Billy Bob Thornton, Robert Duvall e John Hurt. “L’Enfant d’en Haut” , de Ursula Meier, conta com um protagonista infantil excelente, só que pesa a mão nas situações artificiais num filme que se pretende naturalista. “Was Bleibt” , ao contrário, parte de um argumento absolutamente realista para escorregar no final com ares de conto de fada.

Acesse o especial do Festival de Berlim

Já a linha temática das histórias de amor, representadas pelos citados “Tabu” e “Barbara”, tem outros dois representantes: “Les Adieux à la Reine” , de Benoît Jacquot, sobre a devoção de uma empregada por Maria Antonieta, e “Metéora” , de Spiros Stathoulopoulos, sobre a relação proibida de um monge e uma freira. O primeiro pesa nas cenas postiças, enquanto o segundo apresenta rigor formal, mas frieza na condução do romance.

Agora é esperar para ver se entre os seis concorrentes que restam há o vencedor inegável do Urso de Ouro.

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