Húngaro Bela Tarr impressiona com imagens fortes

Longo e repetitivo, "O Cavalo de Turim" guarda influência de Nietzsche

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

Divulgação
"A Torinói Ló", nome original daquele que pode ser o último filme do diretor húngaro Bela Tarr
Exibido na competição do Festival de Berlim 2011 , “A Torinói Ló” (o cavalo de Turim, na tradução livre), do húngaro Béla Tarr, exige muito, mas muito mesmo do espectador. Não é cinema para principiantes. Mas quem tem paciência para enfrentar seus 146 minutos, ritmo lento e repetitivo, é recompensado com uma peça cinematográfica que permanece impressa na mente com imagens fortes.

O diretor começa com um letreiro contendo a história que Friedrich Nietzsche, em 3 de janeiro de 1889, saiu de sua casa em Turim e viu um cavalo sendo castigado pelo dono. O filósofo interrompeu a surra abraçando o animal, chorando. Levado de volta à casa, ficou em silêncio por dois dias, disse suas últimas palavras e viveu por mais dez anos, louco. “Não sabemos o que aconteceu ao cavalo”, termina o letreiro. Então passamos às imagens de um cavalo sendo conduzido por um homem de quase 60 anos (János Derzsi), por uma tempestade de vento. Ele chega em casa, uma mulher (Erika Bók) ajuda a colocar o bicho para dentro, a guardar a carroça, tira as roupas do homem, veste-o com outras. Ele se deita, ela pega duas batatas, cozinha, eles comem.

No dia seguinte, ela se levanta, vai ao poço, pega dois baldes de água, ajuda o homem a se vestir, ajuda com o cavalo, mas ele não sai do lugar. Eles guardam o cavalo, a carroça, ela tira as roupas dele, veste outras, cozinha as batatas, eles comem. Seis dias se passam assim. Repetitivamente, lentamente, apenas com o barulho do vento ao fundo e a música que entra com frequência. Os dois quase não se falam. Apesar de tudo parecer sempre o mesmo, a cada sequência de repetições há revelações e se reforça a impressão de um cotidiano cada vez mais difícil.

Cada sequência é pensada. O filme impressiona pelo rigor estético, marcado pela fotografia em preto e branco e pela recusa a qualquer tipo de concessão. Como os personagens, o espectador enfrenta tudo aquilo e mergulha nessa época e nesse lugar indefinidos, em que o mundo chega ao fim. O filme parece falar do passado, mas trata dos dias de hoje, em que os recursos naturais escasseiam, o clima enlouquece e muitos vivem sem o mínimo necessário.

Reuters
"Nunca estamos inteiramente felizes", garante Tarr
Na entrevista coletiva na tarde desta terça-feira (15), Tarr disse, sobre a influência de Nietzsche: “Se começar, vocês vão ouvir até a noite. Ele é tão parte do filme quanto o cavalo”. O cineasta contou que não tenta dizer às pessoas o que fazer. “Não tentamos criar solução, simplesmente retratar e narrar e mostrar o jeito como vemos o mundo. Tudo morre no mundo, talvez o mundo mesmo morra. Nós estamos aqui e sabemos que teremos de deixar a Terra. Isso significa que nunca estamos inteiramente felizes.”

O diretor afirmou ainda não saber que tipo de significado um troféu no festival poderia ter para o cinema húngaro. “Acho muito difícil ter obras de arte competindo. Como pode alguém dizer quem é melhor, se Dostoiévski ou Proust?”, perguntou. Sobre os boatos de “A Torinói Ló” ser seu último filme, ele afirmou ser uma questão pessoal. “Se for o caso, as pessoas que me conhecem saberão as razões. A verdade é que alcançamos um certo ponto, completamos um círculo e talvez comecemos a nos repetir. Isso não é necessariamente ruim, mas há esse perigo.”

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