"É nosso prêmio mais importante", afirma Paolo Taviani em Berlim

Diretores de "Cesare Deve Morire", ganhador do Urso de Ouro, e outros premiados falam sobre o festival à imprensa

Mariane Morisawa, enviada especial a Berlim |

Não chegou a ser surpresa o Urso de Ouro de “Cesare Deve Morire” , dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, que, desde sua exibição, vinha frequentando as conversas e listas de melhores do Festival de Berlim 2012 . “É o nosso prêmio mais importante, porque este filme é diferente dos outros que fizemos”, disse Paolo Taviani na coletiva de imprensa dos ganhadores.

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Os italianos Vittorio e Paolo Taviani seguram o Urso de Ouro por "Cesare Deve Morire"
“Para nós, era essencial que o filme fosse visto aqui, um festival preocupado com os problemas sociais do mundo. Trabalhando na prisão, é fácil falar de liberdade, de tirania e de assassinato. Para nós na Itália, ‘Julius Caesar’, de William Shakespeare, é uma obra muito atual.”

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A atriz congolesa Rachel Mwanza, de "Rebelle"
O longa tinha vários elementos capazes de agradar ao júri presidido por Mike Leigh, ele próprio um homem de teatro, e ainda se encaixar no tipo de obra de linguagem mais ousada que costuma ser premiada em festivais.

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Já o Prêmio Especial do Júri dado a “Csak à Szél” , do húngaro Bence Fliegauf, foi mais inesperado, mas deve ter agradado por sua chave realista e fundo político sobre a situação dos ciganos. “Sempre considerei esse filme uma produção para televisão. Eu acho que a TV deveria apoiar esse tipo de cinema social, para mim seria a função da televisão. E não conseguimos nenhum dinheiro de nenhum canal húngaro”, disse o cineasta. “Espero que essa criatura nos ajude da próxima vez”, completou, apontando para o Urso de Prata. Ele falou sobre a recepção dos filmes na Hungria. “Alguns sites radicais me chamaram de ‘puxa-saco de ciganos’”, afirmou.

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O Urso de Prata de melhor direção a Christian Petzold pelo econômico “Barbara” reconheceu um dos filmes mais bem realizados exibidos na competição. Desconfiava-se que o longa-metragem deveria ganhar algo, só não se sabia o quê. “‘Barbara’ foi diferente das minhas experiências anteriores, porque eu perdi o controle das coisas. E foi bom.”

O Urso de Prata de melhor atriz para Rachel Mwanza, de apenas 14 anos, por sua interpretação de uma menina-soldado no Congo, no filme “Rebelle” , era uma barbada. “Tive uma vida muito dura, sabia que era uma grande chance para mim e tentei fazer o meu melhor”, disse Rachel, que viveu nas ruas de Kinshasa antes de ser escolhida para fazer o papel de Komona. “Quero continuar fazendo filmes, esse é meu desejo. Já fiz minha escolha.”

Leia também: "Cesare Deve Morire", dos irmãos Taviani, ganha Urso de Ouro em Berlim

Bem menos previsível foi a dupla premiação para o apenas correto “En Kongelig Affære” , de Nikolaj Arcel. O ator Mikkel Boe Følsgaard falou sobre interpretar um rei considerado maluco. “Alguns achavam que ele era maníaco-depressivo, outros que ele era esquizofrênico. Li em algum livro que ele tinha uma risada estranha, então incluímos no filme”, disse.

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O cineasta português Miguel Gomes: taça e prêmio
O troféu de inovação para “Tabu” , coprodução com a Gullane Filmes dirigida por Miguel Gomes, foi recebido com um agradecimento irônico. No fundo, o português está resgatando coisas do cinema do passado, como o preto-e-branco e o formato 16 mm. “Estou feliz com o troféu de inovação por fazer um filme à moda antiga. Talvez fazer um filme à moda antiga seja muito moderno”, disse o diretor.

Sobre uma suposta moda do cinema silencioso e em preto e branco, ele afirmou: “O que conta é tentar mostrar coisas que estão acontecendo entre os personagens da melhor maneira que você pode fazer. Tentei colocar nesse filme algumas das emoções que eu vivi assistindo a esses filmes antigos”.

O cineasta ainda falou sobre a situação do cinema em Portugal. “Espero que se discuta qual deve ser a intervenção do Estado no cinema, a ideia de que um Estado deve ter cinema se não existe mercado. É um conceito de serviço público que começa a desaparecer da Europa e sobretudo em Portugal.” O prêmio só comprovou que um júri presidido por Mike Leigh tinha os pés bem presos na realidade e não se encantou muito com os raros voos poéticos da competição.

Na coletiva de imprensa dos vencedores, após a cerimônia, o português João Salaviza, vencedor do prêmio de melhor curta com “Rafa”, também comentou o estado da cultura portuguesa. “A situação de Portugal não está fácil em todas as áreas, como vocês sabem. Mas faz tempo que o cinema não é tratado com cuidado. Vamos ver se o prêmio vai ajudar ou não. Confiamos que o novo governo salve o cinema português”, afirmou.

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